quinta-feira, dezembro 28, 2006

Até para o ano!

Caros amigos, vim até aqui para vos desejar uma óptima entrada em 2007. Não me quero alongar em mensagens comuns, vazias de conteúdo e impessoais. É uma prática que tenho vindo adoptar. Menos palavras, mais acções. Não sei se é da idade (!?), mas começo a ficar farto de alguma hipocrisia que abunda nestes dias. Esquece-se o resto ano. Limpa-se o que se disse, o que se fez e vamos ser felizes. Quase por decreto. No dia 2 de Janeiro, de todos os anos, voltaremos a ser aquilo que éramos.
No entanto, não queria deixar passar este final de ano para agradecer a todos os que me visitaram, de propósito ou apenas por engano. Já entrei por engano em muitos locais e acabei por lá ficar. A vida, como sabem, está cheia de encruzilhadas, de entroncamentos, que nos fazem pensar e decidir. Umas vezes bem, outras nem tanto.
Pessoalmente, tentei ser sincero nas palavras que escrevi. Transmiti a todos vós o senti, o que gostei (ou não), sem qualquer rodeios. Coloquei, neste blog, muito da minha vida, o que mais me marcou.
Depois da minha estada cá por baixo, vou até à terra, para comer a couvinha, a morcela, o cabritinho que me faltou, durante estes dias. A lareira, pelo que me disseram está já acesa. Ainda bem!
Até para o ano.
Rui M.M.M., o Pingus Vinicus

quinta-feira, dezembro 21, 2006

O R/C da Casa de Aguiar

O título não quer dar a ideia de que é menor, é apenas mais barato. Está ao nível do chão. É mais acessível. Tal como os R/C de um prédio. É o que dão a entender os vendedores de imóveis.
Este D'Aguiar (tn) 2004, é um vinho que se encontra com muita facilidade nas prateleiras de um supermercado. Aliás, é nos supermercados, hipermercados, mega-supermercado que eu compro a maior parte dos meus vinhos.
Voltando ao vinho, o que poderei dizer? Que se comportou de forma muito correcta, equilibrada, limpo de aromas e sabores. Sem deslumbrar, cumprindo muito bem o papel que lhe foi destinado. Ser bebido com satisfação, no nosso dia-a-dia, sem provocar grandes dilemas, dificuldades ou estarrecimentos. É saudável que assim seja. Quando se chega a casa, depois de um dia de trabalho, muito raramente temos capacidade para a beber algo mais complexo. De qualquer modo, ainda deu para sentir frutos vermelhos, suaves sopros balsâmicos, tudo envolvido por tiques aromáticos que faziam recordar bosque, musgo, fetos. Sempre num registo directo.
Na boca, certinho, fresco, saboroso. Final levemente baunilhado.
Vale os 2€ e pouco que dei por ele.
Nota Pessoal: 14

segunda-feira, dezembro 18, 2006

A Subjectividade da Prova

Na Revista dos Vinhos, edição de Abril de 2002, nº 142, na coluna Correio dos Leitores, escrevi, em termos genéricos, o seguinte: quando leio uma critica a determinado vinho, parece-me que as avaliações e notas de prova são em muitos casos contraditórias. Porquê?
Com um pouco mais de atenção, fico com a ideia (empírica), que as notas de prova de um vinho estão intrinsecamente ligadas a um gosto ou tendência pessoal, por parte de um especialista. Isto é, será ou não verdade, se tivermos preferência por uma determinada região demarcada (acrescento: e produtor), proporcionamos quase sempre avaliações mais valorativas aos vinhos dessa região, que aos das outras?
Outra dúvida que tenho quando leio uma nota de prova tem a ver com a forma como se descreve um vinho. Por exemplo: um diz que dado vinho possui taninos vigorosos, com aromas a cacau, frutos silvestres, final prolongado e com boa capaciadade de envelhecimento. Outro diz que esse mesmo vinho possui taninos macios e sedosos, aroma a fruta fresca, final médio e aconselha a bebê-lo jovem. Aliás, na blogosfera somos confrontados diariamente com este problema. Basta recordarmos o que escrevi sobre o Quinta da Gaivosa 2003.
Um conjunto de questões que na altura me pareciam pertinentes e que passados alguns anos reparei que continuam actuais. O panorama da critica alterou-se substancialmente. Temos novos críticos, novas revistas. Vejo-me mensalmente confrontado com opiniões diversas, julgamentos díspares. Dou comigo a dizer: "Este tipo não percebe nada de vinhos. Este sim, sabe o que é bom."
Que deve fazer o consumidor, para evitar e controlar um pouco os ímpetos da crítica e não andar a correr, que nem um louco atrás dos vinhos que dizem ser os melhores?

sexta-feira, dezembro 15, 2006

Pelo Alentejo a dentro

Uma das regras que existe com a minha patroa, é alternar as festividades do Natal e Ano Novo. Um ano lá em cima, outro cá em baixo. Este ano passarei o Natal no meio do Alentejo, na vila das Alcaçovas, concelho de Viana do Alentejo. Custou-me um pouco no início. Confrontei-me com um conjunto de tradições e práticas que não estava habituado. Faltava-me o polvo, a couve penca, a roupa velha, o granito das ruas. Ao fim de alguns anos, enriquecemos culturalmente. Existe um cruzamento na gastronomia praticada cá por casa. Os produtos nativos de cada zona são misturados, preparados à moda da outra. Os clientes têm gostado.
Em jeito de preparação, irei partilhar com vocês a prova de três vinhos alentejanos. Uma pequena viagem, sem grande emoções, pela enorme planície do Sul.
Abreu Callado Touriga Nacional 2005
, da responsabilidade da Fundação Abreu Callado. "As vinhas estão plantadas junto a Benavila e remontam a meados dos anos 50, estando ainda hoje em produção algumas dessas cepas pioneiras. São cerca de 52 hectares de terrenos franco-argilosos, beneficiados pela amenidade do clima que a Barragem do Maranhão propicia, e que se reflecte na qualidade e excelência dos vinhos, cuja responsabilidade técnica é do enólogo Engº. António Frederico Falcão.
Igualmente localizada em Benavila, a adega mantém os métodos tradicionais de vinificação e envelhecimento, e as ânforas argelinas, inicialmente instaladas em 1956, ainda estão em pleno funcionamento, havendo capacidade para armazenar duas ou três colheitas consecutivas."
Lembra passas envolvidas por compotas. Flor quente e doce (confuso, não é?). Breve sugestão a mineral, tentava desafiar. Na boca, pareceu-me um pouco verde, cru, áspero. Taninos e acidez pareciam sentados num patamar aparentemente elevado. Talvez sinais de juventude. Vale a pena uma nova prova.
Um vinho que quer voar mais alto, dando o sinal de que a Fundação também quer entrar na duro mercado dos vinhos.
Nota Pessoal: 13,5
Roquevale Tinto da Talha Grande Escolha 2004
O nome é bastante interessante: Tinto da Talha. Faz parte da memória do vinho alentejano. Era prática, no passado, estagiar os vinhos em talhas de barro. Não é o caso deste Roquevale. Um vinho que mostrou alguma complexidade. Com aromas a bosque, musgo e frutos silvestres. Nada pesadão, nem chato. Entra pela boca de forma cordata, não enjoa. Final correcto. Um vinho que não desmerece. Para mais informações saltem até aqui.
Nota Pessoal: 14,5
E finalmente Paço do Conde Reserva 2004, que veio do Baixo Alentejo. Da responsabilidade enológica de Rui Reguinga.
Vai direitinho para o meu lote de vinhos que são para esquecer. Normal, igual, flat, regular, sem grande interesse. Sem dar pica ao provador. Enfim, uma pinga que engrossa o grande pelotão dos indiferenciados.
Nota Pessoal: 11

quarta-feira, dezembro 13, 2006

Sem nada para dizer

Criar um Blog, onde o tema central anda à volta do vinho (sem falar dos meus desvairos pessoais), e não provar ou beber nada de relevante, transforma este poiso num espaço morto, sem grande interesse (perdoem-me este momento de soberba) .
Que hei-de dizer? Que ando cheio de trabalho, e o que bebo é tão ridículo que me envergonho de publicar.
Depois estamos a caminhar a passos largos para as festividades do Natal e do Ano Novo. Época onde se gasta o que se tem e o que não se tem (é a chamada: frase chavão).
O povo esquece as amarguras do ano e enfia-se nos centros comerciais, para estoirar os poucos euros que possui. Pessoalmente, irrita-me. É como se o passado fosse apagado. A obrigatoriedade de sermos felizes.
Depois desta temporada louca, volta tudo ao normal. Tal como o Euro 2004. Acordamos para a dura realidade. Os imperadores romanos tinha razão: "Pão e Jogos, para o povo".
Bom, depois deste encher de chouriços, posso-vos dizer que estava com um Catedral 2004, um branco do Dão. Nada de especial. Honesto, frutado, limpo. Cumpre a função de ajudar a descontrair.

domingo, dezembro 10, 2006

Velhos Amigos

Um encontro com velhos amigos (o Cardoso e o Cunha), que fazem parte da juventude passada no Barreiro, na década de 80. Percorríamos o dito Barreiro Velho, mesmo junto ao rio Tejo. Na altura, era o coração desta cidade industrial da margem sul. Era no meio das sociedades recreativas, das tascas, clubes de rua que a juventude se encontrava às sextas e sábados à noite. A revolução ainda era falada, não estava morta. Ouvia-se em muitos locais as canções do Zeca.
Recordo-me que a sociedade barreirense da altura estava ainda dividida. Haviam os filhos dos operários e os dos outros (diziam que eu pertencia a este último grupo. O meu pai era funcionário bancário). Curiosa divisão. Menos feliz, era quando apelidavam de fachos, aqueles que vinham lá de cima.
Verifico, com muita curiosidade, que sou um produto resultante da mistura de tradições, hábitos e culturas bem distintas e, de alguma forma, contraditórias. Tal como muitos, fui daqueles que veio com os pais para a grande Lisboa, por volta dos anos 70.
De regresso ao século XXI, e a Alcochete, aproveitei este feliz encontro para beber dois vinhos que recentemente foram provados pela Revista de Vinhos. Um Dão e um Bairrada. O balanço foi francamente positivo.
Condessa de Santar branco 2005
Depois da aquisição da Casa de Santar pelo gigante da Dão Sul (não sei onde isto vai parar!), foram lançados para o mercado mais um leque de novos produtos. Garrafa muito bonita, com um rótulo muito bem conseguido, de cariz clássico. Feminino.
Levemente adocicado, onde a barrica tinha alguma preponderância. Amêndoas, nozes e avelãs, juntamente com a baunilha, dominavam um pouco sobre o limão e lima. A acidez conseguia proporcionar um bom nível de frescura. Um vinho com alguma personalidade e que vem aumentar o número de bons brancos no mercado. Fez parelha com uns queijos curados. Nota Pessoal: 16
Quinta de Baixo Baga&Touriga Nacional Grande Escolha 2004
Um belo e interessante vinho da Bairrada. Moderno, polido, sem perder complexidade. Boa apresentação, consensual. Entrelaçava muito bem as notas silvestres, as flores e o mineral com o leve chocolate preto. Por baixo, parecia-me sentir folhas de tabaco. Com alguma gordura na boca, taninos bem envolvidos pelo corpo. Final saboroso.
Um tinto que se posiciona muito longe daqueles Bairradinos espigados e agrestes. Combinou muito bem com uma pá de porco assada no forno, acompanhada por uma miscelânea de cogumelos salteados, puré de maçã Bravo de Esmolfe com hortelã e batatinhas douradas.
Nota Pessoal: 16,5

Post Scriptum: A noite foi bem longa.

sexta-feira, dezembro 08, 2006

Porta dos Cavaleiros

Um pouco de história não faz mal a ninguém.
Embora não se conheça a evolução do sistema defensivo de Viseu pela própria dinâmica da evolução da malha urbana da cidade, ao longo dos séculos, podemos suspeitar que começava "na Porta do Soar, a muralha seguia encostada à Rua do Soar de Cima, (depois Rua Cónego Martins), em direcção ao actual edifício do Grémio, onde inflectia, passando ao lado da Rua Formosa. Na sua passagem sobre a Rua Direita, ficava a Porta de São José, ou de cimo da Vila. Cortava depois em direcção à esquina da casa da família Lemos e Sousa, na Rua da Árvore (Porta de S.Cristina). Daí para baixo, a cerca continuava pelo Quintal da Prebenda até à Porta de S. Miguel, ou da Regueira, que dava entrada para a Rua do Gonçalinho, seguindo depois encostada à Rua 31 de Janeiro, até ao Largo de Mouzinho de Albuquerque, mas pelo lado de dentro. Nesta altura, abria-se outra porta, a Porta de S. Sebastião, ultrapassada a qual, a cortina descrevia um grande arco de círculo, abrangendo o Terreiro das Freiras (onde se realizavam as touradas) e a casa dos Arco, até à Porta dos Cavaleiros, ou do Arco, assim chamada, por ficar à entrada da antiga Rua dos Cavaleiros (hoje do Arco). Trepava em seguida a ladeira, encostando-se à Rua dos Loureiros, até ao cimo da calçada de São Mateus, onde se abria a Porta da Senhora do Postigo, ou da Senhora das Angústias, de que ainda há vestígios. Desse ponto, a cerca continuava, vencendo a rampa até ao cimo da calçada de Viriato. Umas casas altas da Rua de Silva Gaio (antiga rua Detrás-dos-Currais), devem assentar sobre os muros antigos e é nesse percurso que se encontra o troço mais bem conservado da circunvalação quatrocentista; uma das portas do muro, apresenta ainda umas insculturas com a forma vaga de uma arma. Seguia depois encostada à mesma Rua de Silva Gaio, tendo por vezes, por alicerce, grandes penedos com a disjunção esferoidal, até fechar o circuito na Porta do Soar". Amorim Girão In “Viseu, um futuro com passado”, Néstia Editores. Informações retiradas daqui.
A inscrição na Porta do Soar (ou Porta de São Francisco), permite-nos compreender que D. Afonso V foi o responsável pela reformulação da estrutura defensiva da cidade, integrando a cerca erguida sob o seu reinado as duas cercas mais antigas.
Dessa cerca afonsina, onde se rasgavam originalmente sete portas, são testemunhos a Porta dos Cavaleiros e a Porta do Soar, além de escassos troços de muralha que chegaram até nós. Nenhuma das torres originais sobreviveu.
Depois de uma breve passagem pela idade média (outro passatempo pessoal) , falemos então do vinho que foi baptizado com o nome de Porta dos Cavaleiros. Também ele faz parte da história, da minha como enófilo, do Dão e dos vinhos nacionais. Quantos já ouviram falar dos míticos Reservas dos anos 60 e 70? Não há muito tempo que na blogosfera o Reserva 1975 foi provado e bem. Um vinho do PREC.
É com muita curiosidade e admiração que vejo um Branco de 1973 a ser vendido a preços de topo. Tendo em conta que estamos a falar de um vinho branco com mais de 30 anos, é de fazer abrir a boca.
Pessoalmente lembro-me de beber o Reserva 1985, com muito agrado. Considerava-o o meu melhor vinho. Olhando para trás, vejo a longa caminhada que fiz e reparo que fui mudando alguns gostos. Não todos, porque a história não se esconde, nem se deita fora.
Passados alguns anos, voltei a beber um Porta dos Cavaleiros. Um Branco de 2004. Com notas petroladas envolvidas por erva verde e fruta em calda, que faziam recordar tenuamente o pêssego e o ananás. Suave perfume a tília e mimosa, tentava reproduzir a imagem de uma encosta serrana, na Primavera.
Na boca, mediano, com o combustível sempre presente. O vegetal e a fruta a saboreavam-se discretamente. Um vinho que custa nas prateleiras pouco mais de 2€ e que não desmerece. Nada mesmo.
Nota Pessoal: 14
Post Scriptum: Um nome cheio de história.

quarta-feira, dezembro 06, 2006

Continuando no Dão, em Darei

Atravessei o Mondego, abandonei Gouveia e encontro-me em Mangualde, concelho vizinho. Destino é Casa de Darei, não muito longe da Barragem de Fagilde. Estamos, portanto, bem no meio do Dão.
O produtor pertence à geração dos tais que desde década de 90, tem tentado recolocar esta região beirã no topo das escolhas dos consumidores. Depois de várias reconversões (vinha, adega e solar), reiniciou oficialmente a sua actividade no mundo dos vinhos na colheita de 1999.
É com alguma curiosidade que venho seguindo a evolução dos vinhos da Casa de Darei. Uma casa que vale a pena visitar e na qual se podem passar uns relaxantes momentos, bem no meio da Beira, para mim a Alta (nada de Interiores ou Litorais). Os vinhos, esses, mantêm sempre o mesmo fio condutor, comportamento. Calmos, bem feitos. Disponibilizados a preços comedidos. O mestre é o jovem enólogo Pedro Nuno Pereira, responsável também pela Quinta do Corujão e Adega Cooperativa de Tázem.
Como nota final, desta introdução, provem o Branco. Apanhem-no e levem-no para casa. É um branco contra-corrente, muito longe das bancadas de fruta exuberante que andam por aí. Relembra um pouco os antigos brancos do Dão, da Estação de Nelas, que deixaram história e muito recentemente tiveram honras de artigo na Revista de Vinhos.

O tinto Lagar de Darei 2003 tal como o Passarela, parece quer dar o salto para século XXI. Indiciou tiques provocantes, insinuantes. Flores, fruta cristalizada e licores proporcionavam um interessante nível de prazer. Cativa e quase que apaixona (falo de mim, naturalmente).
Na boca, um pouco mais seco e mineral que no nariz. Mediano, bem comportado, ameno e bom companheiro para a mesa.
Nota Pessoal: 15
Mais um exemplo, que comprova que existem razões para beber vinho do Dão. O tempo das tormentas parece ter abandonado a região. Tenho ideia que as práticas estão substancialmente mudadas. Existe, aparentemente, uma visão mais alargada do consumidor do século XXI. Dá-me a ideia, também, que há vontade de saltar para fora das fronteiras da Beira, sem nunca perder a alma.

domingo, dezembro 03, 2006

Na antiga Casa da Passarela

Esta Casa faz obrigatoriamente parte da vida de quem ama o Dão e a Serra da Estrela, principalmente para aqueles que têm raízes bem profundas em Gouveia (devo esta paixão à minha mãe). No entanto, para a grande maioria dos consumidores, só foi descoberta quando Álvaro Castro criou o seu Pape. Um vinho que nasceu a partir de uvas de um vinhedo arrendado à Casa da Passarela e de um talhão da Pellada. Em boa hora o fez. Voltou a colocar na boca de muitos de nós, um nome que merece ser conhecido e bebido.

"A Casa da Passarela é uma bela Quinta do Séc.XIX, pode ver-se ou visitar-se passando pela estrada nacional 17 em direcção a Lagarinhos ao Km 102, Passarela, no sopé da Serra da Estrela a este da Região do Dão. A história da família do proprietário remonta aos antepassados de Manuel Santos Lima que colocaram as primeiras pedras neste edifício. Lentamente a vinha e o trabalho das uvas ganharam uma importância sempre e cada vez maior na exploração da propriedade.

Nesta paisagem de colinas, a propriedade é composta por diversas vinhas. A escolha dos locais foi efectuada rigorosamente de acordo com a estrutura do solo, a orientação, o micro-clima e a drenagem do terreno. Possui 33 ha de vinha que estão expostas a sul e a oeste. A exploração dos vinhos produzidos na Casa é formada por sete vinhas distintas: Casa da Passarela, Dualhas, Encumeadas, Pedras Altas, Pedra do Gato, Pai de Aviz, Tapada. Os solos são graníticos, a uma altitude de 500 metros. Predominam apenas três das castas nobres recomendadas para a Região Demarcada do Dão: a Touriga Nacional, Aragonez e Alfrocheiro".
Informação retirada daqui.

Casa da Passarela Tinto 2005, é o exemplo de um vinho moderno, que não riscou do seu bilhete de identidade a terra onde nasceu. Apenas está mais actual (o rótulo podia ser bem melhor, mais criativo). Elaborado a partir de um lote de aragonez (não é só no Alentejo que se usa esta terminologia para a Tinta Roriz) e Touriga Nacional.
Com uma aparência a lembrar o doce de amoras. Vinoso, fresco, com morangos, groselhas e framboesas salpicados pelo orvalho. Perfumado por violetas, rosas e cedro. Um pouco de musgo e caruma dava-lhe um toque de complexidade. O aparecimento de drops e licores sugeriam um lado mais doce, tornando-o acessível, apelativo, jovem e feminino.
No palato, mostrou estrutura média, equilibrada, proporcionando prazer silvestre. Final médio e de boa recordação.
Fiquei surpreendido com o nível de qualidade e prazer que tive com este Dão, lá da Terra. Com menos de 4€, está muito bem e recomendo.
Nota Pessoal: 15
Post Scriptum - Existe também um Touriga Nacional de 2005, com uns pomposos 15% de graduação alcoólica.
Fez-me bem ir até lá a cima. Limpei a cabeça, descansei.

quarta-feira, novembro 29, 2006

Douro sombrio

Parece que existem vinhos que definem muito bem um estado de espírito ou uma época do ano. Neste caso, e apesar de terem sido provados em momentos diferentes, bem podiam ter sido no mesmo dia. Num destes dias de chuva, já escuros na cor.
Vinhos que não percebi, que não entendi, que pouco prazer deram. Ambíguos, sem alma, sem chama (não aqueceram o corpo). Fizeram-me, mais uma vez, pensar na eterna questão: Vale a pena existirem tantos produtores?
Cabe-me a função de partilhar o pouco prazer que tive. Dois Produtores do Douro. Dois desconhecidos.
Alva Corgo 2005, Quinta da Azinheira, Santa Marta de Penaguião.
Aromas simples, directos, onde morangos envolvidos em licor de aniz e cacau marcavam presença. Algum vegetal fresco.
Uma boca gaseificada, que fez lembrar um verde tinto. Estranho, muito estranho. Ausente de sabores, demasiado neutro.
Nota Pessoal: 11

Estopa Reserva 2003, José Pinheiro.
Aromas que lembravam leite com chocolate, muito docinho. Ameixa preta. Mais uma vez directo, sem dar qualquer pica na prova.
Boca muito doce, demasiado cansativo, eternamente chato.
Nota Pessoal: 11,5

Que venham melhores dias, mais risonhos, mais acolhedores. Hoje, estou particularmente cansado. Foi um dia duro, senti-me desamparado. Parece que fui atropelado por um cilindro. Farto de gente mesquinha, que dá mais importância ao acessório do que ao essencial. Farto, empanturrado de gentalha que está à espera que os outros falhem.
Volto para a semana. Vou com a minha filha e companheira ver o resto da família, que anda lá por cima. Pode ser que recupere das minhas desventuras.

domingo, novembro 26, 2006

Evel Grande Escolha 2000

Ao olhar para o Evel Grande Escolha 2000, o que salta à vista (pelo menos à minha) é o rótulo. Gosto dele. Mostra classe, categoria, personalidade e distinção. O novo, para mim, é feio, incaracteristico, não diz nada. Inócuo. Não percebi esta mudança, principalmente vindo de uma casa com muitos pergaminhos na história do Douro.

Mas e o vinho? Todo ele é educado. Com aromas clássicos, bem envolvidos, sempre digno e brioso. Senta-se na mesa, ao nosso lado, sem grandes exibições, sem grande celeuma. Vai fazendo companhia. Gosto destas características. Alguns dizem que é sinal de quem não gosta de arriscar. É capaz de ser possível.
Durante o diálogo, ia libertando fragâncias minerais. Fetos e folhas secas lembravam o Outono. Um charuto para fumar ao pé da lareira. Madeira envernizada do armário, onde estão cestinhos de fruta cristalizada e frutos secos. Acompanhavam com um suave licor de baunilha. Terminava com café perfumado com canela (sim, eu gosto de mexer a minha bica com um pauzinho de canela).
Entrava devagar pela boca. Não ofendia, pedia licença. Fresco, balsâmico.
Depois da garrafa estar quase no fim, fui acossado por uma questão. Quais serão os vinhos portugueses, da nova geração, que irão ter esta calma ao fim de 6 anos de vida?
Nota Pessoal: 17

quarta-feira, novembro 22, 2006

Henrique UVA

Henrique Uva, um produtor que já teve honras na Revista de Vinhos (com reportagem alargada). Produz milhares e milhares de litros de vinho, lá no meio do Baixo Alentejo, na Herdade da Mingorra. Terra de muito calor. Quase deserto.
Dois tintos. Um regional alentejano e um vinho de mesa. Este último enquadra-se na categoria em que está o Dado (parceria Álvaro Castro-Dão/Dirk Niepoort-Douro). São vinhos concebidos com uvas provenientes de diferentes regiões. Mas não é caso único. Dourat (uvas do Douro com uvas do Priorat) e Pião (uvas de Piemonte com uvas do Dão), são outros exemplos. Estas "combinações, estes arranjos vinícolas" não podem mencionar ano de colheita, nem castas. A legislação nacional não permite (preciosismo).
No entanto, não são novidade no nosso país. Fizeram escola nos anos 50/60 do século XX. Era comum existirem vinhos (garrafeiras) elaborados com lotes do Dão e da Bairrada. A enóloga Filipa Pato tenta renascer essa filosofia com os seus Ensaios.
Mas voltemos, à Herdade da Mingorra. Apesar das diferenças que tiveram no nascimento, o estilo, o comportamento dos tais dois tintos é similar, muito parecido. Numa linha impositiva, raçuda e peituda.

Vinhas da Ira 2004 (Alentejo)
Todo ele é pujante, químico. Lembrei-me mais uma vez da minha clássica tinta da China. Sente-se extracção (para mim, em demasia). Posterior evolução para vegetal (que tentava refrescar). Café e chocolate. Sempre num registo potente, capaz de desintupir as narinas mais tapadas.
Entra na boca de forma brusca, intensa e forte. Assusta. Um pouco mais de suavidade, não faria nada mal.
Um vinho que carece de tempo para abrir, para respirar e acalmar. Mesmo assim, tenho dúvidas que se torne num cavalheiro. Nota Pessoal: 15
Uvas Castas 2004
Feito com uvas do Douro e do Alentejo. Um rótulo muito curioso. Bem idealizado e esclarecedor. Mais uma vez, o estilo robusto e concentrado a dominar.
Pareceu abrir, curiosamente, com aromas mais frescos, mais interessantes e ?elegantes? que me orientavam para a flor de esteva (seria o Douro a querer mostrar-se?). Café, cacau e baunilha faziam o arranjo final, sobre um cenário com fundo terroso.
Na boca, com força, um pouco mais equilibrado que o Vinhas da Ira. O corpo aguenta, e bem, com os taninos e com a acidez. Secura nas genivas. Final com alguma doçura.
A precisar de uma boa dose de brandura, de meiguice. Dava jeito. Nota Pessoal: 15,5

segunda-feira, novembro 20, 2006

Smith Woodhouse LBV 1995

Os Portos são a grande lacuna na minha aprendizagem como enófilo. Que o meu pai não leia estas palavras. Ele é um filho do Douro. Para ele, aliás, não existe vinho do Porto. "Onde têm as vinhas?" Existe vinho fino, do Douro. Percebo onde ele quer chegar. São os homens que trabalham a difícil terra que oferecem ao mundo este néctar e não os outros que vivem lá na cidade.
Fruta madura quente, envolvente, com o caramelo e baunilha no primeiro impacto. Breves sensações a mato húmido davam-lhe complexidade (imaginação?). Chocolate e frutos secos, com umas pitadas de canela, eram o toque final. Nunca me cansei de cheirar.
Na boca muito guloso, redondo, com a acidez a proporcionar uma excelente frescura. Mastigável. Um final médio longo. Bebe-se com muito prazer, sem se tornar simples.
Um LBV que pertence ao universo da Symington Family e parente do Warre's (ainda tenho o 1994). Coloca-nos num patamar de elevada de qualidade. Para quem não chega aos Vintages, por variadas razões, é uma óptima opção. Gostei francamente. A nota que lhe ofereço não tem qualquer termo de comparação, dado que o leque de Portos que provo é muito reduzido. Nota Pessoal: 17
Algumas Questões
Pareceu-me que este LBV tinha capacidade para evoluir positivamente em garrafa. Será vantajoso guardar alguns LBV's? Ou estamos perante vinhos que são para beber, logo que saiam para o mercado? Lembro-me de uns Quinta do Infantado LBV 1996 e 1998 que tinham arcaboiço para durar (eram musculados, excessivos).
Amigos meus, mais doutos na capacidade de análise, comentavam bastas vezes que muitos LBV's podem durar uns bons 10 aninhos. Verdade ou nem por isso?
Gostaria de criar um banco de LBV's para ir provando ao longo dos próximos anos.

domingo, novembro 19, 2006

Um Encontro de Eno-blogs. Que acham?

Caros amigos eno-bloguistas, será que não estamos no momento ideal para nos juntarmos e realizarmos uma Conferência/Encontro entre todos? Dito de outra forma, e mais ligeira, não estará no momento certo para realizarmos uma jantarada?. Discutir sobre alguns temas, reflectir um pouco sobre o vinho e a comida. Conversar. A Internet é uma excelente ferramenta, uma enorme fonte de informação, mas o contacto pessoal, o olhar nos olhos é primordial e muito mais interessante.
Todos nós trabalhamos (modestamente) em prol do vinho em geral e do Português, em particular. O que nos une é a paixão, o amor pelo líquido de Baco.
Esta ideia não é minha. Foi discutida com o Nuno do Saca-a-rolha em privado. A malta do Krónikas Vinícolas também lançou o repto no seu blog (muito recentemente). Com o João do Copo de 3, falo regularmente. Também ele aprecia a ideia.
É o meu primeiro lançamento. A minha primeira deixa. E vocês o que dizem? Vale a pena ou nem por isso?
Post Scriptum:
A decorrer no dia 12 de Janeiro de 2007

sábado, novembro 18, 2006

Quinta da Carolina 2003

Uma estreia em absoluto (para mim). Um vinho que tenho visto por aí. Ouço falar dele. Até ao momento, nunca consegui encontrar dois indivíduos que tivessem a mesma opinião sobre este transmontano concebido por um estado-unidense. Uma curiosa combinação.
A Quinta da Carolina é pertença do enólogo, da Real Companhia Velha, Jerry Luper (ainda é?). Um norte-americano que reside há muitos anos no nosso país e que escolheu o Douro para viver. Pessoalmente escolheu muito bem.
Os únicos dados que obtive foram sobre a colheita 2000. De qualquer maneira, dá para termos o uma ideia sobre a filosofia do projecto. "(...) o americano Jerry Luper revela o ponto ideal de "maturação", que é como quem diz, de conhecimento e domínio da pequena propriedade onde se instalou com a mulher Carolee, em meados da década de 90. (...) apresentando-se como expressão muito mais equilibrada e conseguida dos 2,7 hectares de vinhas velhas na margem esquerda do Douro, nos arredores do Pinhão. Arriscamos mesmo dizer que é com a colheita de 2000 que Luper eleva a sua pequena produção familiar ao nível esperado a partir de anteriores realizações no nosso país. Além do trabalho pioneiro na Califórnia e da ligação a alguns ícones do vale de Napa (Diamond Creek), vale a pena lembrar que estamos perante o director técnico da Real Companhia Velha, responsável pela projecção dos vinhos de mesa da casa para patamares de qualidade que valeram, por exemplo, o troféu da Revista de Vinhos para a melhor empresa em 1999. Antes dessa data, esteve também ligado à ascensão da Quinta de Pancas, assistindo na criação dos varietais "Special Selection". No caso do Quinta da Carolina, consegue finalmente harmonizar a antiga tradição duriense - lagares de pedra, pisa artesanal, prensa vertical manual - com a experiência enológica Californiana. O resultado é, como se disse, um enorme salto em relação a anteriores colheitas: um tinto de estrutura mais equilibrada, final mais elegante e prolongado, e, sobretudo, taninos melhor domados. (...) Um vinho elaborado a partir de um lote com Tinta Roriz 30%; Tinta Barroca 25%; Touriga Francesa 20%; Tinta Carvalha 15%; outras 10%. A mistura de castas tradicionais foi pisada 6 a 8 dias em lagares de pedra (leveduras seleccionadas). Estágiou em 14 meses em barricas de carvalho americano, francês e português" Retirei esta informação daqui.
Bom, o que eu achei dele. Gostei. No início, não foi muito simpático. Nada mesmo. Sisudo, pouco conversador. Por vezes, até desagradável na forma como se apresentou. Pertence ao lote daqueles que necessitam de atenção e paciência. Aromas animais, a lagar e a azeitona esmagada tomaram a dianteira. Assustaram e quase fizeram abandonar o vinho. A fruta (madura, mas fresca), o vegetal, o café envolvido por lavanda conseguiram cativar. Deram-lhe um semblante bem mais interessante.
Na boca elegante, diferente. Algo rústico, rural. Atraente, envolvente e com complexidade. Se calhar um pouco anacrónico (gosto desta palavra) e distante dos outros Douros. Acredito que possa ter uma boa evolução. Um vinho para pensar. Com personalidade vincada. Nota Pessoal: 16,5
Post Scriptum:
Mais uma vez um vinho que não foi consensual.

quinta-feira, novembro 16, 2006

PROVA À QUINTA - Vinho com menos de 13% Vol.

O primeiro Touriga Nacional feito pela COOP de Tazém. Nascido em 2000. Nesse ano nasceram quatro varietais. Tinta Roriz, Alfrocheiro Preto, Jaen e naturalmente o Touriga Nacional. Foi o inicio da mudança na Cooperativa de Vila Nova de Tazem.
Um vinho com alguma elegância, suave e discreto. Uma forte componente vegetal aliada a interessantes sugestões florais. Todo o ambiente aromático anda à volta dos pinhais, do mato e folhas secas. Impressão de lagar, dá-lhe um certo carácter.
Na boca, com boa frescura, taninos finos. Com sabores vegetais, mentolado. Final médio/curto.
Um correcto Touriga Nacional, vindo lá da Terra.
Nota Pessoal: 14
A minha resposta ao desafio do
Copo de 3.

quarta-feira, novembro 15, 2006

Um desafinado Oboé

Um vinho com nome de um instrumento musical (de sopro, com timbre semelhante ao da clarineta, embora mais agudo e anasalado. Possui bocal de palheta dupla, situado no final de um tubo perfurado, de formato ligeiramente cônico. Introduzido na Europa no final do século XIV, foi aperfeiçoado no século XVII, na França. É geralmente utilizado como solista em passagens líricas).
Não tenho grande ouvido para a música, nem sou especialista na matéria. Gosto de ouvir simplesmente. No preparatório, as aulas de música eram, para mim, um autêntico suplício, um terror. Nem uns ferrinhos conseguia tocar decentemente. Ao contrário dos meus colegas, eu chumbei nesta disciplina. Uma mancha no meu percurso escolar, que eu nunca esqueci. Eram momentos de riso por parte dos meus pares. Odiava.
Agora este Oboé 2003 (Douro) podia ter dado outra música. Ter tocado um bonito solo, uma bela melodia, capaz de inspirar. Mas não. Teve um prestação muito triste, sem qualquer vivacidade, sem qualquer jovialidade. Aromas a passa, doce. Madurão. Pesadão. Chato...
Na boca, sem graça, sem piada e sem fogo. Um pobre espectáculo musical, ou melhor, um espectáculo enófilo que me desiludiu.
Decididamente não tenho grande tendência para a música.
Nota Pessoal: 12
Post Scriptum:
Distinguiu-se dos outros pares pelo curto tempo de atenção a que teve direito.

segunda-feira, novembro 13, 2006

Quinta da Gaivosa 2003? Não Pode!?

Falar de vinhos, que ostentam nomes de respeito, com peso na opinião pública e na critica é um desafio árduo e complicado. O nível de exigência que se coloca é alto. E poucos conseguem atingir esse patamar. É como se estivessemos perante uma Liga dos Campeões. Por esta razão, nem todos os que provam e bebem vinho são críticos (e ainda bem). A maior parte de nós pertence à enorme falange dos tais que lançam umas bocas para impressionar os amigos ou aqueles que ainda não largaram o Monte Velho, o Esteva ou o Grão Vasco (naturalmente, enquadro-me neste grupo).
Várias vezes, confronto-me com a minha real incapacidade em descrever, comentar ou falar sobre muitos ícones. Se sabem bem, se deram prazer, se são saborosos, a coisa até acaba por correr bem. Umas palavras simples mais a respectiva nota dão o toque final e safo-me. O barbicacho acontece quando a história não tem o final que desejaríamos.
Olhemos para o vinho em questão. Foi provado em prova cega (não sei se é importante). Estava no meio de um lote alargado de vinhos. Todos eles com manias e tiques diferentes. Brutos, enjoativos, leves, ácidos, incaracterísticos, complicados, chatos, maníacos. Enorme conjunto de variáveis, que confundem. Momentos em que as capacidades de análise são levadas ao máximo. Assumo, sem qualquer problema, que me escapam pormenores. Talvez demasiados. Muitos defeitos ou virtudes não são detectados por mim e provavelmente nunca o serão.
E no palco da prova, o Quinta da Gaivosa 2003 (Domingos Alves de Sousa) teve o privilégio de me baralhar, de questionar as essas capacidades, pois não lhe detectei qualquer característica que o diferenciasse, dos seus companheiros de prova. Exibiu, em demasia, um estilo muito igual a tantos outros. Sem deslumbrar, sem dizer nada em concreto, sem falar comigo de forma explicita. Com aromas a fruta madura, por momentos até madurona. Algo doce. Na boca, pareceu-me ter uma acidez alta, um pouco desarticulada do conjunto. Com um corpo mediano. Durante a prova, só me ocorreram palavras e adjectivos que geralmente uso para caracterizar vinhos com nomes mais modestos. O fatalismo de ser mais fácil prender um pobre do que um rico. Até nos vinhos!
Quando mostraram o rótulo. Corei de vergonha. Será que não percebi o vinho? Nota Pessoal: 15
Post Scriptum:
Embaraço total.

quinta-feira, novembro 09, 2006

O Pingus GOSTOU mais destes!

São as pingas mais bem classificadas ao longo da curta existência deste Blog (oito meses). Foram aquelas que mais gostei. São as que gostaria de ter em minha casa, nas quantidades certas. Infelizmente algumas delas já não moram na minha garrafeira. Felizmente, muitas delas foram bebidas na companhia de bons amigos.
O objectivo é simplesmente agrupa-las num simples post. Servirá como um guia para os amigos: "Deixa lá ver o que ele gosta mais!"
A selecção não tem qualquer critério ou norma. Existem vinhos recentes e vinhos com alguma idade. Uns provados sozinhos, outros em provas cegas, outros ainda à balda. Cada um deles tem um link para o respectivo texto, permitindo que possam fazer uma leitura e criticar se acharem conveniente (e existe muito para criticar).
Alguns factos curiosos. Não entrou nenhum vinho do Dão. Como todos sabem é a minha região (a par do Douro). Niepoort (Douro), CampoLargo (Bairrada) e José Bento dos Santos (Estremadura) foram os arquitectos do maior número de vinhos. Do Alentejo veio um dos meus vinhos preferidos.
Douro
Bairrada
Calda Bordaleza 2004 (18)
Diga? 2004 (17,5)
Estremadura
Alentejo
Setúbal
Estrangeiros
Uma lista reduzida e simples.

terça-feira, novembro 07, 2006

Syrah da Herdade da Maroteira

Herdade da Maroteira Syrah 2005. Um tinto que nasceu na Aldeia da Serra, Redondo. Já agora, um pequeno desvio. Não foi por estas bandas que aconteceu um grande incêndio, que destruiu grande parte da paisagem envolvente, neste último Verão?
Falemos da pinga. Mais uma descoberta alentejana (para mim). Surpresas destas, eu gosto. Não sou grande amante dos vinhos da grande planície (os meus amigos sabem disso. São manias, que facilmente são contrariadas, como já foram, por diversas vezes).
Andei por essa internet fora à procura de informações sobre este produtor, mas nada encontrei. Pode ser que o master dos vinhos alentejanos passe por aqui e diga, partilhe com a malta o que sabe sobre esta Herdade. Eu, pelo menos, ficava grato.
O vinho esse, apresentou-se com aromas iniciais a azeitona preta esmagada (não vale a pena perguntar qual é diferença entre esta e as outras. Tinha que optar por uma cor. Escolhi a preta). Lembrei-me muitas vezes dos odores do lagar, da adega, do cachiço. Aprecio muito. Dão-lhe personalidade, carácter. Os experts dizem que são vinhos com um lado rústico. Para mim, ainda bem. Nada de modernices, bem longe dos vinhos urbanos, metro, que estão na moda e fazem um enorme sucesso.
Depois de ter libertado aquele tal lado mais rural, manifestaram-se aromas pretos, muito pretos, de aparência fresca, sem excessos. A fruta tinha alguma subtileza. Cacau amargo, com tabaco, peles e couros. Apimentado.
Uma boca sedosa, envolvente, onde a azeitona, o caramelo, a baunilha, o cacau imperam. Tudo suportado por uma correcta acidez. Um final de boca médio, com qualidade e que me deixou boas recordações.
Gostava de ter algumas botelhinhas deste alentejano do Redondo. Quem souber onde elas andam, digam-me, falem comigo. Gostava de provar em minha casa, com toda a calma do mundo.
Nota Pessoal: 16,5


Post Scriptum: Ando a gostar dos vinhos alentejanos. Estarei a mudar ou serão os vinhos alentejanos que estão abandonar aquele estilo pesadão, meio madurão?
A fotografia é de umas das entradas da Vila do Redondo.

domingo, novembro 05, 2006

Eu estive Lá (no EVS)

Já fui e voltei do Encontro com o Vinho e Sabores. Só obtive autorização para o Sábado (dia 4 de Novembro). A minha a patroa (cá de casa) só permitiu, dispensou um dia de liberdade vínica. Foi bem aproveitada. Aliás, este ano foi dedicado para passear pelos stands, observar e conversar com amigos. Os vinhos que provei foram muito menos que no passado. Não perguntei pelo que havia debaixo da mesa. A idade parece provocar uma diminuição na minha capacidade para andar a vasculhar os segredos do mundo dos vinhos. Eles acabam sempre por se revelar ao mundo. Há que ter calma e paciência.
O companheiro de jornada foi o Pedro Brandão o gestor do COV (um dos elementos da minha quadrilha).
Gostei de rever o João Roseira, que anda desaparecido das lides bloguistas à muito tempo. Foi interessante ouvir alguns comentários sobre o rumo que os vinhos estão a tomar (em especial os do Douro e da Bago de Touriga). Um abraço para ti.
O Paulo Pacheco foi um bom companheiro durante uns largos períodos da minha estada no EVS. Bem disposto, bom camarada. Só um verdadeiro apaixonado por estas coisas é que se desloca dos Açores até à capital, para participar num evento destes. Mas como ele afirmou: "São só duas horas de viagem!" Tem razão. Conheci a malta do Krónikas Vinícolas. Outra bela quadrilha.
O patrão do Vinho da Casa andava por lá, discreto. Será que estava intimidado com a Capital? Um abraço para ti, caro Paulo Silva. O master do Copo de 3, velho conhecido meu, de outras guerras, de outras vidas, não faltou. Adoro observar um alentejano a provar vinhos do Douro, do Dão. Ainda deu para trocar umas impressões com o Luis Antunes e cumprimentar o João Geirinhas, ambos da Revista de Vinhos.
Cumprimentos para todos os amigos que fui encontrando (não, não me esqueci de ti: Ó Dionísio, fazia tempo que não te via).
Bom, falando de vinhos, deixo-vos aqui uma lista muito pessoal, que vale aquilo que vale. É mais um guia, para futuras compras cá para casa. Tirando algumas excepções, todos foram provados pela primeira vez. Venha agora o dinheiro, que espaço tenho muito.
Pingas Brancas

Secret Stone 2005 (um sauvignon blanc da Nova Zelândia)
Filipa Pato IceWine 2005 (a brincadeira da Filipa)
Quinta das Bageiras Garrafeira 2004 (desde 2002 que o bebo. Um branco à antiga, mas não antiquado)
Quinta de Baixo Reserva 2005

Quintas das Maias Encruzado/Malvasia Fina 2005 (mais um branco da Terra)
Dona Berta Rabigato 2005 (nunca tinha provado este vinho. Um bom companheiro para a mesa. Curioso)
Maritávora 2004 e 2005 (um vinho nascido na minha terra paterna. Na propriedade que era da família do Poeta Guerra Junqueiro)
Gouvyas Reserva 2004 (pareceu-me mais equilibrado que a colheita anterior, mas tem mais estágio em madeira que o reserva 2003)
Madrigal 2005 (belo branco. Diferente. Gostava de poder beber, muitas vezes, um vinho assim)

Pingas Tintas
Herdade de Portocarro (continuo a gostar e muito)
Anima L4 (uma delideza de vinho. Não deitei fora. Adorava ter umas quantas botelhas deste vinho em minha casa. É pena o preço que pedem)
Barons de Rothschild Pauillac Reserve Spéciale 1998 eBarons de Rothschild Legend R 2000 (pelo preço que disseram, torna-os bastante apetecíveis. Vou ver se os vejo por aí)
Marquês de Borba Reserva 2003 (preço, como dizem, está upa, upa)
Quinta Foz de Arouce Vinhas Velhas de Santa Maria 2003
Quinta da Ponte Pedrinha Reserva 2001 e Quinta dos Roques Garrafeira 2003 (provem, que vale a pena. Escola do Dão)
Quinta do Noval 2004 (muito bom, interessante. Vai ser proibitivo. O nome ajuda) e Cedro do Noval 2004 (para quem não conseguir comprar o topo, este é uma bela opção)

Generosos/Moscatéis/Madeiras/Portos e afins
MR Blue Montain 2005 Moscatel
Kracher's (boa relação preço qualidade)
Tokaji Wine, Ats Cuvée 2003 (acho que é assim que se escreve. Nunca tinha bebido um tokaji. Por essa razão, fiquei apaixonado. Também não deitei fora)
Col. Privada Domingos Soares Franco 2000
Alambre 20 anos (não falha. Adoro este moscatel)
Taylor's Vintage 2003 e 2004, Ramos Pinto Vintage 2003, Quinta do Vesúvio Vintage 2004, Dows Vintage 2004, Graham's Malvedos Vintage 1998 (nem me atrevo a exprimir qualquer comentário. Nada. Se nos vinhos de mesa, ainda consigo dizer disparates, no que respeita a Vintages a minha ignorância é tanta, que me calo)
Verdelho 1977 e Bual 1971 da Madeira Wines Company (idem. Preferi ouvir o responsável)

19h.00m, fui embora. A patroa estava no carro à espera.

Post Scriptum: Conheci ainda uns amigos que me tinham interpelado aqui, por causa do Diga?. Um abraço para eles.

quinta-feira, novembro 02, 2006

O Touriga da Ermelinda

Um Touriga Nacional, nascido em 2003 na casa de uma produtora, de uma senhora que mora em pleno território das Terras do Sado. Com as suas vinhas bem plantadas em quentes areias.
"A Família Freitas produz vinhos em Fernando Pó, uma zona privilegiada da região de Palmela, há cinco gerações. A quase totalidade das uvas colhidas em Fernando Pó são vinificadas pela Dra. Leonor Freitas e pela sua família. O seu bisavô era proprietário de mais de 600 ha de vinha. A Casa Ermelinda Freitas propriedade da Dra. Leonor Freitas possui 102 ha de vinha dos quais 94 ha da casta Castelão, mais conhecida na zona por Periquita, e 8 ha da casta Fernão Pires (branco). Dada a localização privilegiada da sua exploração, nela são produzidos alguns dos melhores vinhos da região.Em 1997 a Dra. Leonor Freitas decidiu iniciar o engarrafamento de parte da sua produção. (...) Os vinhos, anteriormente vendidos a granel a várias empresas exportadoras de renome, são actualmente engarrafados pela Casa Ermelinda Freitas.
O primeiro vinho a ser comercializado foi o Dom Freitas 1998 em homenagem ao avô da proprietária actual. Foram produzidas 38.000 garrafas. (...)" Informações retiradas do site."
"Seis anos apenas depois de ter começado a vender vinhos engarrafados, a Casa Ermelinda Freitas - de Fernão Pó, Palmela - apresentou (...) um naipe de respeito o branco de 2005 (...), os tintos de 2003, entre os quais o topo de gama Leo d'Honor, e o primeiro moscatel da casa. É uma aposta na qualificação dos vinhos de uma casa que, por curiosidade, quase sempre teve mulheres no seu comando. Ermelinda Freitas, representante da terceira geração e hoje uma respeitável septuagenária, foi quem a orientou até aos anos 90 na actividade de produção e venda de vinho a granel. Só a partir de 1997 a sua filha Leonor, que desde então lidera a empresa, começou a engarrafar parte da sua produção com marca própria, a qual chegou ao mercado em 1999. Hoje, a empresa produz cerca de 1,7 milhões de litros de vinho por ano, boa parte escoado através de um milhão de garrafas das suas dez marcas. A liderança feminina, essa, parece estar assegurada na quinta geração Joana, filha e neta das antecessoras, gosta do mundo dos vinhos, estuda gestão e já iniciou um pequeno negócio de compotas, cujos produtos, em breve, poderão ser adquiridos (...). (...) O trabalho do enólogo Jaime Quendera, uma pedra fulcral na carreira da empresa. Em geral, os seus vinhos têm-se destacado pela positiva dentro do segmento de preço em que concorrem. E, pelas provas, tudo leva a crer que assim continuem. (...) No Touriga Nacional 2003, o primeiro varietal de Jaime Quendera fora da casta Castelão, encontramos um tinto robusto, concentrado, mas a que não falta frescura e que tem já os taninos bem incorporados acompanhou lindamente uma empada de galinha e farinheira (o almoço de apresentação esteve a cargo do chefe Vítor Sobral e da sua equipa) e deverá evoluir bem nos próximos quatro/cinco anos. Os tintos da casta Castelão são, contudo, aqueles em que a casa mais aposta. Desde logo no Quinta da Mimosa 2003, que tem origem em vinhas com 47 anos. Fez a maceração durante um mês e meio e, depois, estagiou em barricas de carvalho francês e americano é um vinho muito concentrado e com bons taninos, aroma a fruta madura, um toque de baunilha e final prolongado. Quanto ao Leo d'Honor Grande Escolha 2003, o topo de gama, é um vinho de alto gabarito e um bom exemplo do máximo que o Castelão pode dar. Fruto de uma cuidada separação de uvas de um vinha com 53 anos, estagiou um ano em madeira francesa. Só agora está a chegar ao ponto de ser bebível apresenta uma grande estrutura, óptimos taninos, aromas ainda fechados e um belo futuro à sua frente. Resta o Moscatel Superior 2000, o primeiro da casa. Depois de cinco anos em barrica tem muito mel, cortado por uma sugestão de casca de laranja e óptima acidez. Está um conjunto com mais frescura do que é habitual na região, o que torna talvez mais apto a ser bebido como aperitivo."
Retirado daqui .

Posto isto, acabei por retirar da arca, o que considero um típico exemplo de um vinho pujante, explosivo, nervoso, com tiques de alguma rispidez. Com extracção, com muita coisa levada ao máximo. Para quem gosta de automóveis, faz lembrar um Subaru Impreza WRC, onde os arranques e as travagens são brutais, repletas de forças G's. Ou se quiserem, ou preferirem, uma banda de Heavy Metal. Apresentação que assusta. Só aguenta quem pode, quem tem arcaboiço ou aprecia o género.
Fruta preta por todo lado, envolvida por terra e perfumada por uma boa dose de baunilha. O mentol, os balsâmicos tentavam refrescar, lutando para baixar a temperatura e refrear os ânimos. Cedro e verniz compunham o ramalhete. Acabei por não conseguir libertar-me das memórias de outro vinho da Dona Ermelinda: O Quinta da Mimosa 2003. Também este me assustou.
Na boca a performance deste varietal foi consentânea com os aromas. Não fugiu, nem um pouco, ao exagero. Provavelmente fruto da juventude, de alguma imaturidade. Vou observar com cuidado o que acontecerá com as outras garrafas que tenho em casa, pois esta deixou-me algum amargo de boca, uma certa desilusão que pretendo esquecer.
Nota Pessoal: 15,5
Post Scriptum:
É um vinho cheio de nervo, exuberante e potente como relata e bem o meu amigo Nuno do Saca a Rolha. Estou de acordo com ele, mas o nível de valorização que ele lhe atribui, não é o mesmo para mim.

terça-feira, outubro 31, 2006

Garrafeira de Tazem

Se existe coisa em que tenho orgulho é olhar para a minha mulher e vê-la a confeccionar pratos lá de cima. Uma alentejana de volta das receitas da minha família. Fico babado. E foi em redor de um belo arroz de polvo, bem caldoso, que bebi uma pinga da Adega Cooperativa de Tazem (Freguesia de Vila Nova de Tázem, concelho de Gouveia). Um Garrafeira 2000.
A COOP de Tazem deu um enorme salto na qualidade dos seus vinhos, com a entrada do actual enólogo, engenheiro Pedro Nuno (responsável também pelos vinhos da Quinta do Corujão e da Casa de Darei). Este jovem teve a capacidade para dar a volta aos sócios, introduzindo hábitos e métodos de trabalho que conduzissem ao aumento da qualidade e consequente sucesso nas vendas. O grande salto foi dado com o lançamento de vários varietais em 2000. Alguns deles (Touriga Nacional e Alfrocheiro) acabaram por entrar no lote dos eleitos do jornalista José António Salvador, num dos seus últimos guias.
Se querem um vinho cheio de fruta, potente e esmagador, não bebam, porque não irão gostar. Seria uma perca de tempo para vocês. Neste garrafeira dominam, principalmente, aromas de granito, lagar, musgo. Sempre numa linha húmida e silvestre. Folhas secas de personalidade indefinida aparelham com caruma. Perfumado com muitas flores. Cheguei a cheirar qualquer coisa parecida a rosas. Decididamente um vinho que anda muito longe da moda. Eu, pessoalmente, agradeço.
Entra fresco pela boca, sempre numa linha mineral e balsâmica. Suave, acetinado (talvez até demais). Com um pouco mais de músculo, de nervo, era capaz de voar bem mais alto. Final entre o curto e o médio. É, no entanto, um vinho feito para a mesa, para a comida.
Nota Pessoal: 14,5
Post Scriptum:
O Arroz de Polvo estava óptimo.

domingo, outubro 29, 2006

Aragonês das Servas

Depois da recente incursão à Beira Alta (a transmontana) através do Versus, meti-me a caminho, pelo copo, e fui até à planície, ao enorme Alentejo. Terra da minha mulher. É curiosa a combinação genética e cultural que existe cá em casa. Sangue lá de cima, com sangue lá de baixo originou uma bela pequena, de cabelos louros e olhos castanhos bem escuros. A minha filha.
Um vinho da Herdade das Servas. Um Aragonês de 2004, a Tinta Roriz lá de cima do Dão e do Douro. Este varietal encaixa na perfeição na categoria daqueles que classifico como vinhos gulosos. Pingas bem construídas, com objectivos bem definidos. Saber sempre bem (falo de mim, naturalmente).
Inicialmente com muita fruta, de calibre fresco. Ainda no pomar. Lembrei-me, curiosamente, daquele aroma que os pomares libertam de manhã, quando estão cobertos pelo orvalho. Estão a ver? Entretanto, pareceu-me que andavam a rolar pelo copo aquelas bolas de neve, os tais rebuçados de forma esférica, que são ou eram embrulhados em papel de cor vermelha. Alguma hortelã tornava este aragonês ainda mais curioso, jovial e atrevidote. Breve sensação de terra parecia quer dar um ajuste na complexidade. Com o andamento da prova, o café (ou algo parecido) acompanhou com chocolate. Um dupla que nunca mais desapareceu.
Na boca, guloso, repleto de fruta guarnecida por cacau e café. Taninos e acidez posicionados de forma equilibrada. Final bem curtido.
Um exemplo de um vinho que está feito para agradar a todos. Que sabe ou saberá sempre bem (o que provei era amostra, só com a indicação da casta e do produtor).
Nota Pessoal: 16

quinta-feira, outubro 26, 2006

Versus, o tal!

Versus 2004, um vinho que foi falado, comentado por essa internet fora. Uns argumentavam que tinha valor, outros enrugavam o sobrolho com alguma desconfiança. Ao nível dos críticos, os verdadeiros, notei que não havia consenso nas suas avaliações. É normal. Nada de extradordinário. É a liberdade expressão a funcionar e ainda bem que é assim. Observei e li cuidadosamente o que se dizia, o que se falava sobre ele.
Tinha que fazer o meu teste. Aquele que me interessa. É com o meu apertado exame, que decido quais os vinhos é que irei escolher para ter na minha garrafeira. A vida não está para andar a gastar euros, atrás de euros ao sabor do que os outros dizem.
O teste acabou por decorrer durante uma prova cega. Um vinho que foi literalmente adorado e odiado. Nem mais, nem menos. Não houve meio termo. Pouco consensual. Levou as paixões enófilas ao rubro. Reparei com curiosidade as expressões que iam saindo das faces dos meus companheiros, à medida que iam provando o dito.
Para mim, achei este beirão uma pinga muito interessante. Com muito carácter, com força, com presença. Algo inquietante. Uma força da natureza (desculpem-me este exagero). Representa, e bem, a dura região da Beira Interior, onde nasceu (estou a lembrar-me do excelente rótulo). Uma terra de extremos, de contrastes, de difícil trato, rude. Paredes meias com o Douro e com Espanha.
Desatavam aromas minerais, que se envolviam com a terra quente. Terra onde nascem as giestas, as figueiras do Diabo, a esteva. A fruta era fresca, com muitas flores em redor. Um leve aniz adocicava o odor que saltava do copo.
Na boca, enchia. De perfil peitudo, raçudo, por vezes agreste, mas capaz oferecer prazer. Os taninos e acidez estão bem guardadas no corpo. Um belo vinho beirão.
À honra das gentes que vivem em Figueira de Castelo Rodrigo e aos Beirões.
Nota Pessoal: 17

segunda-feira, outubro 23, 2006

O jantar da Quadrilha

Voltaram os jantares, com alguns dos mais intimos companheiros do Pingus. Fazia algum tempo que a quadrilha (Fernando Moreira, Jorge Sousa, Pedro Brandão e a minha pessoa) não se juntava, não se encontrava para conversar, beber e comer. As lides da vida têm impossibilitado e adiado constantemente o encontro.
Lá se arranjou uma data, ao fim de duras negociações. O local, o restaurante, estava estava meio apalavrado. Decidimos continuar em Alcochete, no Arrastão, paredes meias com as antigas secas do bacalhau e não muito longe das salinas.
Os vinhos. Optámos por dois brancos, dois tintos e um Porto 20 anos. A escolha foi livre. Cada um pensou no que quis, da forma que quis, sem qualquer imposição, sem qualquer restrição. Cada um serviu o seu vinho, sem referir qualquer pista ou indicação sobre o líquido que tinha trazido.
A ementa estava já definida. Bacalhau assado nas brasas, valentemente regado com azeite e acompanhado por batatas, ou melhor, batatinhas a murro e uma lombeta de porco. Queijos e sobremesa.
Falemos do que realmente interessa.
Em jeito de aquecimento, o Brandão meteu na mesa mais uma relíquia, que só ele consegue encontrar. É preciso ter paciência para descobrir vinhos esquecidos. Um autêntico alfarrabista dos vinhos. Um Caves Velhas Garrafeira 1962. Sem qualquer indicação de região. Com uma cor espessa, opaca. Aromas repletos de café, tostados e frutos secos. Com alguma vivacidade na boca. Interessante, curioso e ainda bebível. Foi posto de lado para ver o nível de evolução que aquilo ainda poderia ter, ao longo da noite. Valeu a pena vê-lo ao lado de um pudim de ovos.
Os brancos. Redoma Reserva 1999 (escolha do Jorge) e Paço dos Cunhas de Santar Vinha do Contador 2005 (escolha do Pingus). Dois brancos com seis anos de diferença.
O Redoma mostrou uma postura mais masculina. Gordo e cheio. Com aromas a tangerina, laranja e melaço. Um vinho com personalidade. Acompanhou muito bem o bacalhau. Atribui-lhe a nota pessoal 16,5.
O Paço mostrou uma linha mais exuberante. Sinais da sua juventude. Floral, com fruta tropical e anizados. Sugestões de erva fresca. Baunilha. Na boca, a madeira pareceu-me em evidência. A necessitar de amadurecer e voltar a beber. Acredito que se torne num belo branco. Nota pessoal 16.
Nos tintos, o duelo decorreu entre um Quinta da Dôna 2003, vindo da Bairrada (escolha do Fernando) e um Duas Quintas Reserva 1999, do Douro (escolha do Brandão).
O Dôna mostrou um carácter moderno, elegante, apelativo e consensual. Sem arestas, bem desenhado. Chocolate, leite com cacau e fruta preta. A especiaria apimentava o aroma. Pastoso na boca, untuoso. Um belo vinho português, que nasceu numa região mal amada. Mereceu, e bem, o Prémio de Excelência que lhe foi atribuído pela Revista de Vinhos. Uma boa relação preço qualidade. Nota pessoal 17,5 e vai entrar para o lote dos meus eleitos.
Finalmente o duriense. Com aromas frescos, onde a fruta combinava suavemente com o mineral. Pareceu-me um pouco frágil e mais seco na boca. De qualquer modo, um vinho com qualidade e com bom nível de complexidade. Desenhado por um grande senhor do vinho português. Nota pessoal 16.
Terminámos com um Dow's 20 anos. Elegante, saboroso, repleto de aromas e sabores a frutos secos, canela, laranja caramelizada. Pessoalmente tinha saudade um Tawnie deste calibre. Nota pessoal 17.
Agora a quadrilha só voltará a juntar-se na Reunião Magna. No Encontro com o Vinho, dia 4 de Novembro.

sexta-feira, outubro 20, 2006

Semana Penosa

Final. Terminou uma semana dura, longa, cansativa, quente de emoções. Fiz greve. Para mim, em defesa da minha dignidade pessoal, pelo respeito que mereço como individuo, como pessoa, pelo gosto e prazer que tenho naquilo que faço. Uma greve contra o chicote, a humilhação, a pancada. Greve, porque não sou culpado pelo défice público, pela fuga aos impostos que desgraça este país. Porque não sou culpado por sermos (des)governados por uma elite incompetente, medieval que nos orienta com chicote, que nos pisa, que olha para nós (o povo) com nojo e desrespeito.
Uma elite, palavra nobre demais para definir um conjunto de indivíduos, que se alimenta, que rapa tudo, que mina, que destrói como se fosse uma praga. Por vezes, imagino um fim da tarde, uma mesa redonda onde alguns comemoram, brindam, gargalham com as desgraças que provocaram: "Hoje aumentamos mais um imposto. Hoje lançamos mais uma taxa. Amanhã iremos diminuir os vencimentos. Para o mês que vem iremos sacar o subsídio do Natal. Tudo em prol do desenvolvimento do País, ou melhor tudo em proveito da nossa sobrevivência, do nosso sustento."
Desculpem-me este desabafo. Precisava dele. É um grito de revolta. Um lamento. Se calhar, um choro.
Para reconformar-me e esquecer este rebuliço, desci as escadas e fui acordar um vinho que estava adormecido na minha garrafeira. Quase esquecido. Passou por um sono de sete anos. Foi há sete anos que casei com a minha cara metade. Foi há sete anos que decidi mudar de vida.
O vinho esse, foi retirado devagar da cama onde estava. Os aromas iam despertando de forma amena, lembrando a terra húmida, revolvida. Terra onde aparecem os cogumelos, os míscaros. Fui agitando lentamente, pausadamente, sem grandes pressas. Suspirava a pinheiro, a caruma, a pinhal. O perfume ia ganhando complexidade com os cheiros de folhas secas. Com o tempo, as frutas cristalizadas, os licores, a canela, o açúcar em pó davam ares da sua graça. O ambiente entre nós aquecia, ficava mais intimista, mais sensual. Era ele e eu. Mais ninguém. Ainda senti sugestões citrinas, acompanhadas por hortênsias. Exagero da minha parte.
Na boca, entrou de forma elegante, calmo, sem grandes alaridos. A acidez estava bem viva. Era refrescante. O corpo tomava conta dos taninos.
Um belo vinho, aristocrático. Um belo Dão. Para Beber, para reconfortar a alma, o espírito.
Lutei pela minha dignidade, pelo respeito que mereço.
O vinho tinha o nome de Quinta do Cabriz Touriga Nacional 1999.
Nota Pessoal: 17

quarta-feira, outubro 18, 2006

Muito Pouco DIFERENTE

Veio do outro lado do Guadiana, do lado espanhol, da mesma casa deste, mas muito menos cativante, atraente que o seu irmão. Logo, para mim, o nome Diferente, com o qual foi baptizado, tem muito pouco a haver com ele. É um vinho igual a tantos outros. Oferece o que muitos outros oferecem. Bebe-se e esquece-se. As memórias que deixam são ténues. Proporciona um sentimento de indiferença. Por vezes, não existe pior sensação. Fico preocupado quando isso me acontece.
Feito a partir de uma receita que está bem difundida por todo mundo, seja ele Velho ou Novo. Uma receita que satisfaz milhões e milhões de consumidores.
Fruta e frutinha, compotas e compotazinhas, rebuçados e rebuçadinhos. Pouco mais. A partir de daqui só mesmo com a imaginação a trabalhar, e verdade seja dita é tarefa quase draconiana (gostei desta palavra, dá um ar mais mítico à coisa). É como tentar fazer um jantar romântico no meio de um Centro Comercial.
Este Diferente é um Cosecha 2005, e é um tinto jovem.
Nota Pessoal: 13,5

segunda-feira, outubro 16, 2006

O Paço dos Falcões

Um regressso ao Ribatejo. Parei no Paço dos Falcões. Um Grande Escolha 2004, concebido ao partir das castas syrah e castelão. Cartaxo é o leito de nascimento. Dizem que é a capital do vinho. Não deixa de ser um título pomposo.
O que estava no copo, ia libertando um conjunto de aromas bem comportados, medianos, sem grandes virtudes e sem grandes defeitos. Tudo num estilo consensual, em que toda a malta gosta.
A apresentação foi feita com sugestões de morangos, framboesas e cerejas (quando vi as castas, só pensei: "Errei completamente"). Tímidas aparições balsâmicas e florais tentavam animar as narinas.
Na boca, comportamento regular, sem grandes protagonismos, limpo e correcto. Igual a tantos outros. Cumpriu o honesto papel de ser bebido, o que é sempre positivo. No entanto, as recordações que ia deixando eram ténues, fracas.
Nota Pessoal: 13,5

quinta-feira, outubro 12, 2006

Ao Passado

Existem momentos, na nossa vida, em que precisamos de viajar no tempo. Voltar a viver aquilo. Parte da minha vida é passada a lembrar-me do que fiz em enquanto puto, lá na terra. Aquelas férias no Dão, no Douro estão marcadas e bem marcadas na minha memória. São ao mesmo tempo os meus alicerces, as fundações da minha personalidade.
Lembro-me todos de os pequenos pormenores, de todas os momentos passados. Os cheiros, os aromas, os sons, os sabores estão registados, estão cá dentro. Uma vida que tento transmitir à minha pequena filha. Uma vida que lhe ofereço. Um testemunho meu, muito pessoal. Vocês conhecem este meu desejo.
Quinta de Saes Estágio Prolongado 2000
teve a honra de me oferecer, por breves momentos, uma viagem às minhas recordações. Uma viagem que me fez voltar a viver as brincadeiras que tinha no meio do pinhal, lá junto à ribeira, onde se sentia a brisa da caruma, das flores, dos fetos. Que aventuras! Eu e os meus amigos éramos os eleitos. Os donos daquele mundo. A nossa demanda era defender aquele canto dos ataques dos adultos, dos grandes. Tantas promessas fizemos entre nós. Todas foram quebradas. Tornámo-nos nos tais adultos contra os quais lutavámos.
No meio da tarde aparecia a minha mãe a gritar: "meninos está aqui a merenda!" Eram umas grossas fatias de pão centeio barradas de geleia ou de doce de tomate. Reconfortavam o estômago da malta. Voltavamos à brincadeira. Quem era agora o herói? Tirávamos à sorte.
Tudo o que nos envolvia era suave, delicado e misterioso. O descanso era feito a olhar para a Quinta do tio Aurélio. "Onde estariam as melhores maçãs? As melhores pêras?" Era necessário encontrar a estratégia para colher os melhores exemplares.
Na volta para casa, vínhamos calados. Passávamos pelas ruas estreitas, onde o granito era rei e senhor. Os vasos repletos de flores alinhavam-se junto às casas.
O vinho, esse fez-me companhia durante esta noite.
Nota Pessoal: 17

quarta-feira, outubro 11, 2006

Dois olhares sobre a Touriga

Dois tourigas, dois estilos, duas escolas. Duas maneiras de olhar a touriga nacional. A casta, que agora, chamamos de casta rainha. Aquela que nos vai ajudar a chegar ao estrelato, à liga dos campeões. No entanto com tanta touriga, que anda por aí, ainda iremos fugir dela, e como todas as modas desaparecerá...
Não existe produtor neste recanto da Europa que não queira ter um vinho feito exclusivamente com Touriga Nacional. Alguns, que me perdoem, mais valiam estar quietos. Ter Touriga Nacional, por si só, não é sinónimo de sucesso (estou a falar das vendas, de reconhecimento e de tudo o mais).
Felizmente não é caso dos dois vinhos que eu trago à vossa consideração. Duas pingas que não são opções de primeira linha, é certo, mas apresentam um nível de qualidade interessante. Conseguem abarcar um espectro de consumidores, com gostos e apetências distintas. Deste modo, ninguém ficará zangado comigo. Não sei se interessa, mas eles foram provados em prova cega.
O primeira opção é o Quinta do Valdoeiro Touriga Nacional 2005. Das Caves Messias. Mantêm, no essencial, o estilo que este produtor tem vindo a oferecer, nos últimos tempos. Líquidos pastosos, mastigáveis, robustos, escuros e espampanantes. Nota-se que anda por ali o toque do novo mundo. Este touriga não foge a todo este envolvimento.
Violetas, fruta, musgo, baunilha e chocolate preto. Tudo numa linha negra, escura. Num registo exuberante, pujante, viciante, onde as minhas narinas tiveram, em alguns momentos, muita dificuldade para conseguir perceber o que andava por ali.
Na boca, as bagas silvestres, as ginjas tomaram a iniciativa. O chocolate amargo, o tabaco vieram logo de seguida, sempre com grande estardalhaço. Mesmo com tiques comportamentais algo exagerados, a acidez ajudava a manter um bom nível de frescura. E ainda bem!
É um Touriga Nacional que impressiona, que cativa numa prova cega. Numa refeição é que a porca torce o rabo. Um pouco mais de elegância, de suavidade não lhe faria nada mal. Para esperar e ver no que vai dar. Pareceu-me um pouco mais bruto que o Quinta do Valdoeiro 2003. Talvez sinónimo de juventude a mais.
Nota Pessoal: 15,5

Outro Touriga Nacional. Este nasceu nas Terras do Sado. Da Bacalhôa Vinhos. Só Touriga Nacional 2001. Que raio de nome!? Existem nomes muito infelizes e este é um deles.
Cor meio tijolada, mostrando que a pinga já tinha alguma idade.
Aromas frescos, onde o mineral e o vegetal faziam a apresentação inicial do grupo. O floral (flor de larangeira) enriquecia o conjunto. Leves raspas de casca de árvore conferiam outra complexidade. Caminhou, entretanto, até ao pó de talco. Por breves momentos, voltou-me a recordar os cheiros do velho armário da avó.
Quando teve que mostrar o que valia, na minha boca, este permaneceu educado, cavalheiresco, educado. Sem grandes alaridos.
Num estilo suave e mais elegante que o Valdoeiro. Mais discreto, mais afinado, mais calmo, mais distinto. Uma bela surpresa, não só para mim, como também para muitos dos que se encontram a meu lado.
Nota Pessoal: 16,5

sexta-feira, outubro 06, 2006

Com este Barão não quero nada!

Existem vinhos que dificilmente irei gostar ou achar alguma graça ou piada. Vinhos que não entendo, não percebo. Ultrapassam os limites que pessoalmente estabeleci como aceitáveis. Muitos deles, têm nomes cheios de nobreza, são bonitos, vestem belos rótulos, viajam em garrafas caras. Enchem o olho ao consumidor. Não passam despercebidos, não senhor!
O que trazem lá dentro, no entanto, fica distante de todo o aparato visual e publicitário que os acompanha. A expressão: "A montanha pariu um rato" , é mais que adequada neste tipo de situações.
Barão de Perdigões Garrafeira 2001. Um alentejano produzido por Henrique Granadeiro, criado pelas mãos do enólogo Paulo Loureano, vai entrar direitinho para o leque de opções que eu dificilmente escolherei. Repleto de fruta madura, ou melhor sobrematura. Cheio de compotas variadas (sabem bem, mas com peso conta e medida). Muita ginja e licores. Demasiado concentrado, exagerado, com pouca elegância. Cansativo, enfadonho, mediano na boca, sem vivacidade. Por vezes, deu-me a ideia que queria comportar-se como se fosse um Porto (faltava-lhe apenas aguardente). Seriam problemas de personalidade?
Bom, sei que existem, por esse mundo fora, adeptos deste estilo de vinhos, não tenho dúvidas. Pouco me importa. O que me interessa é que eu não sou um deles. Provavelmente, estarei errado. Mas a vida está cheio de equívocos e eu não sou excepção. Nota Pessoal: 12
Post Scriptum:
Em termos de nobreza alentejana, o Marquês de Borba Reserva é, para mim, o eleito.