sexta-feira, agosto 28, 2015

Conselhos ao Vizinho

Lembram-se do meu vizinho do lado direito, aquela personagem que, habitualmente, é aconselhada por mim, no que respeita a vinho? Resolveu dar à costa, batendo à porta. Trata-se, como sabem, da única pessoa que dá crédito ao que digo. Queria, desta vez e desesperadamente, um conjunto de pistas sobre algumas novidades, sobre o que estaria aí na berra, que fossem o último grito. Algo, pelo que percebi, que pudesse, acho, ser diferente. 


Devo dizer que fiquei sem palavras, sem saber o que que dizer ou propor. Um vazio de sugestões, derivado essencialmente de um estado de despreocupação e desatenção sobre o que tem vindo acontecer ultimamente. O silêncio foi, devo reforçar, prolongado, ao ponto de, abanando a cabeça de forma coerente, dizer: não sei, não faço ideia. Não faço mesmo ideia. Vestido com uma postura estática, encaminhei-o para as redes sociais e outros quejandos onde de tudo se mostra e sabe. Talvez pudesse encontrar alguma coisa. Olhou para mim, estupefacto com a inusitada incapacidade de propor o quer que fosse e assim poupar-lhe trabalho.

terça-feira, agosto 18, 2015

Quinta dos Três Maninhos Reload

Move-me, ao fim deste tempo todo e acima de tudo, o contacto, a afabilidade, a conversa descomprometida, sem virtuais facturas, a relação pessoal. Posto isto, relembro, nunca tive e nem tenho qualquer pejo em denunciar publicamente que tenho um particular carinho por este projecto, bem como uma estreita relação pessoal por quem dá a cara por ele. Já o disse aqui

O Vinhas Centenárias tinto ou o Vinha do Canez é mais um belo exemplo do que uma vinha (bem) velha nos pode oferecer. Suavidade, elegância, complexidade. 
Lagar onde nascem os vinhos.
Desta vez, foi possível conjugar vontades e visitar o pequeno mundo que rodeia a Quinta dos Três Maninhos. Numa escala liliputiana e extremamente familiar, são criados vinhos que tentam conciliar, como aludem os contra-rótulos, a história da família com alguns ajustes que a tecnologia permite. Nada choca, tudo parece bater certo.

A escala da linha de produção: Pequena no tamanho, grande na paixão, asseio e dedicação.
A simbiose entre o passado e o presente.

O pequeno portefólio foi recentemente enriquecido com um vinho branco proveniente de vinhas velhas. Produção minimalista que se resume a poucas centenas de garrafas.

Ainda sem rótulo o futuro Vinhas Centenárias Branco. Após a primeira edição experimental que não saiu para o mercado, esta segunda colheita quer-nos dizer que temos aqui um vinho que merece atenção. 
Gosto, gosto muito, adoro. Fruta limpa, frescura, amplo e a mostrar uma grande capacidade de evolução. Que dizer mais sobre o assunto?
O resultado: vinhos simbióticos, vinhos que não perdem carácter, que conseguem ser ambivalentes, limpos, francos e frescos e, porque não, saudavelmente gulosos. São, e isso é que importa para o caso, vinhos que gosto e aprecio. Vinhos para beber.
A dar, ainda, os primeiros passos, mas já com uma entrada de felino, acredito que a afinação, o ajuste, o crescer, o natural amadurecimento das ideias vão tornar estes vinhos num caso cada vez mais sério na região. 

segunda-feira, agosto 03, 2015

Pequei 70x7

Setenta vezes sete será, provavelmente, o algoritmo mais conhecido do mundo ocidental. Alude a uma eventual troca de palavras entre Pedro e Jesus, em que o primeiro pergunta ao segundo quantas vezes deverá perdoar alguém. O segundo, presumível mestre do primeiro, retorque que deverá absolver setenta vezes sete. Sabendo que o produto de setenta por sete é, apenas, quatrocentos e noventa, fica a ideia que um simples humano esgotaria o stock de perdões e/ou pecados de forma muito célere. Ambos possuem uma relação biunívoca. À época quatrocentos e noventa seria, talvez, um valor considerável. 

Adrian Brouwer, autor belga.
Eu pequei mais que setenta vezes sete. Pequei, porque não quis saber de copos, bebi amiúde vinho servido pelo jarro. Peguei em taças, levantei, por mais que uma vez, o jarro atestado com omnipresente vinho da casa e brindei incessantemente despido de quaisquer tretas ou porras finórias. Bebi repetidamente. Engoli ao balcão, acompanhado por um pires de uma coisa qualquer, desembuchei à mesa com valentes tragos de afamados vinhos indiferenciados, provavelmente vindos do pacote, de um velho e decadente barril ou da ultra-moderna e urbana box.

Adrian Brouwer, autor belga.
Actos de liberdade, quiçá provocatórios, de não querer saber o quer que seja. Que se lixe, pensei repetidamente, não quero saber, insisti. Desde que viesse fresco, bem gelado e adamado. Pequei mais que 70x7, mas não peço perdão por nenhum dos pecado. Voltarei, por certo, a pecar. 

domingo, agosto 02, 2015

Ares de Liberdade

Liberdade é dizer não, é deixar de andar atrás do circo, onde grande parte do que se diz e se pensa é inócuo, vazio, carregado de lugares comuns e inconsequentes. É marimbar para uma porrada de coisas que pouco ou nada importam. Liberdade é quebrar os grilhões do quer que seja


Liberdade é dizer, simplesmente, não quero saber, não interessa. Liberdade é caminhar sozinho, longe das filas, do barulho, profundamente despreocupado se um dia for esquecido. Liberdade é dizer não! Liberdade é dizer sim, apenas, quando apetecer. Liberdade é poder sonhar que vou conseguir. Um dia.