quarta-feira, outubro 21, 2015

Quinta da Murta Clássico

Nada sabe melhor que encerrar o dia com um belo copo de vinho para limpar as más memórias, os desejos não cumpridos e desligar de (quase) tudo. Meter tudo para trás das costas e gritar calado: que se lixem! Com copo atrás de copo começamos a olhar para muitos dos desideratos de forma menos inquietante e muito menos preocupado com os desenlaces. É o que for

Quinta da Murta Clássico 2009

Estado perfeito de letargia é quando esse vinho, o tal que serenou, surpreende de forma (in)esperada. Surpreende-nos pelo (quase) perfeito estado de evolução, pela complexidade que demonstrou, pela inusitada capacidade de mutação que foi revelando. Umas vezes foi uma coisa, outras vezes outra. E no meio deste jogo, meio alucinado, vai-se adormecendo paulatinamente, até aos próximos raios de sol. E devia ser sempre assim. Sempre.

segunda-feira, outubro 19, 2015

Quinta do Cerrado Encruzado: The New Label

Por vezes corre-se o exagero de dizer: é o melhor. Naturalmente esta expressão está carregada de aspectos emocionais. Concordamos ou discordamos dela, consoante a nossa posição perante determinado vinho. É normal que assim seja. Valorizamos ou desvalorizamos. 


Com o nova rotulagem, bem conseguida, por sinal, a nova colheita do varietal Encruzado, parece-me ser, eventualmente, a melhor de todas. De todas aquelas que já foram provadas ou bebidas, como queiram.


Vinho que mantém a frescura, a secura e a tensão que sempre foi apanágio do vinho. Desta vez, ganhou delicadeza e finura, tornando-o mais completo. Ficou, digamos, mais equilibrado, mais balanceado, sem nunca perder todo aquele nervo. Um salto qualitativo. E agora, haja paciência e dinheiro para ir seguindo os seus passos, vendo como ele se irá comportar no tempo.

quarta-feira, outubro 14, 2015

Poço do Lobo Arinto 1994

O prazer de beber um vinho branco com (alguma) idade proporciona, a quem gosta, um conjunto de sensações irrepetíveis. A idade cimenta a complexidade, potencia a descoberta de estímulos que vão para além do trivial, do imediato, do que está ali à mão de semear. Da normalidade.


É preciso ter paciência, tempo e disponibilidade para desfrutar, entender o que um vinho branco adulto, amadurecido pela idade, tem para oferecer. Não se compadece com impulsos juvenis e inconsequentes, que morrem assim que o interesse deixa de ter interesse. Há que ir mais longe e largar o que é supérfluo. Como na vida, ficam registadas as memórias do que foi difícil, não do que foi fácil. 

segunda-feira, outubro 12, 2015

Herdade do Mouchão

Não querendo explanar um discurso demasiado elitista, devo dizer que conhecer a Herdade do Mouchão, a sua génese, o seu percurso e os seus vinhos, faz parte das obrigações de qualquer tipo ou tipa que goste do vinho.


Mais uma vez, e de modo perfeitamente descomprometido, um grupo de indivíduos, sob a batuta de um aficionado incorrigível, foi desafiado para fazer uma prova com vinhos da Herdade do Mouchão. O mote era muito simples: procurar no mercado as colheitas mais emblemáticas do referido produtor, comprá-las e fatalmente bebê-las. Tudo simples. O produtor, a casa mãe, tomando conhecimento dos desideratos de uma dúzia de plebeus desencartados, e por iniciativa própria, teve a amabilidade de acolher o bando, disponibilizando as suas instalações, guiando uma visita, enquadrando todos os vinhos, que foram sendo provados. Juntaram-se, ainda, algumas surpresas mais recentes e que não estavam previstas por parte da presumível organização. Em registo ligeiro, altamente desprofissionalizado e sem qualquer cuidado nas palavras usadas, foram sendo ouvidos comentários, histórias e desmontadas algumas concepções alternativas.


Debaixo de um ambiente bucólico, cerceado por paredes caiadas e pelas leves ondulações do terreno, foi possível perceber que estávamos perante algo muito especial, onde os vinhos pareciam ser feitos quase à antiga, de forma minimalista, onde os lagares e o engaço fazem parte, ainda, da feitura do Mouchão. Pessoalmente, assumo, não estava à espera de ser confrontado com um processo tão pouco interveniente, com laivos de tipicidade e tradição. Mea culpa.


Sobre os vinhos, apraz dizer, não querendo alongar a prosa sobre o estado de cada garrafa/vinho, que foi perceptível em todas as colheitas, a frescura, a presença do tanino, os toques balsâmicos, a complexidade. Um conjunto de atributos que, de uma forma geral, não são identificativos dos vinhos do Sul. Ainda assim, registo para memória futura as colheitas de 1985, 1995, 1996 e um estrondoso 2002, servido em garrafa Magnum. Não esquecendo, naturalmente, a emblemática colheita de 1963.

sexta-feira, outubro 09, 2015

A Primeira Paixão

Ter paixões coloca-nos no patamar mais elevado da humanidade. A paixão é tudo ao mesmo tempo. Congrega dentro dela um misto de sentimentos, de emoções que são, na sua grande maioria, conflituosos entre si. Num ápice deixamos de gostar para passarmos a odiar e voltamos, com a mesma velocidade, a gostar ou amar. Um vai e vem louco.

Fresco e com boa intensidade.
Gosta-se, ama-se, desgosta-se, detesta-se. Tudo ao mesmo tempo e de forma arrebatadora, pouco lúcida, pouco consciente. Pouco reflectida.


E no reino das paixões, dizem que a Primeira é aquela que fica para sempre, é aquela que se irá recordar, até, nos últimos instantes. Será lembrada, talvez, não sei, como uma memória de uma juventude que se teve há muito tempo e que nunca mais voltou. 

quarta-feira, outubro 07, 2015

Quinta dos Penassais

Reflexão de Algibeira

A improbabilidade, por vezes, possibilita-nos, sem querer, tomar conhecimento de factos e acontecimentos que não estávamos, de todo, à espera. Uns agradáveis, outros nem tanto. Permite, ao fim a cabo, perceber que nunca se está preparado para tudo. E mesmo afastado de todo o rebuliço do mundo, longe de tudo e de todos, a probabilidade em ser apanhado pelo inesperado, pelo inusitado, continua a ser alta.

Há uma porrada de anos que não bebia um vinho deste produtor. Nem sequer sabia se estaria, ainda, no activo. A curiosidade foi aguçada por causa do ano da colheita, quatro anos de vida, pelo preço bem cordato que tinha e que poderia compensar o eventual prejuízo, isto é: não tirar qualquer proveito do mesmo.



A reacção, a minha, foi de surpresa, pelo estado de saúde, pela boa forma que ainda apresentava, pela indicação que dava em relação à capacidade para aguentar mais algum tempo. Muito ou pouco, não sei. Parecia ter qualquer coisa de antigo, com pouca fruta e felizmente pouco moderno. Digamos que fiquei admirado pela improbabilidade de ter ali à frente um vinho que valesse a pena, de facto. E valeu.

segunda-feira, outubro 05, 2015

Marquês de Marialva e Cantanhede

A Adega Cooperativa de Cantanhede caiu no goto, como se diz na gíria popular, de quem vai alimentando alguma paixão pelo mundo dos vinhos. Caiu no goto pelas melhores razões. Pelas suas gentes e pela qualidade dos vinhos que tem metido no mercado. Estes dois aspectos são importantes para que o consumidor se sinta coagido, no bom sentido, a comprar os seus vinhos. É inegável, como já referi tantas vezes, que a simpatia, o trato, a relação de proximidade influencia (me) profundamente no acto da escolha. Compra-se, mais amiúde, de quem gostamos ou sentimos afinidade.

Blanc de Noir e Blanc de Blanc. Dois perfeitos exemplos do trabalho feito nesta Cooperativa.

Marquês de Marialva é, neste momento, uma marca incontornável, com uma gama extensa, bem conseguida, bem trabalhada, com um nível de qualidade inegável em todos os patamares. Desde os mais baratuchos aos mais carotes, é perceptível o afinco com se trabalha na cooperativa. E posto isto, só resta dizer: continuem.

sexta-feira, outubro 02, 2015

Histórias: Cartuxa e outras coisas

As histórias ou as lembranças são importantes para não esquecermos o que fizemos, naquele determinado momento. Sejam más ou boas, as memórias ajudam-nos a crescer, a caminhar para a frente. Na verdade, facilmente passamos do presente ao passado, num ápice, num micro segundo. Num estalar de dedos tudo é passado, tudo deixou de ser. Tudo desaparece. 
Falar de Cartuxa é recordar um périplo feito há longos anos pelo Alentejo Central, algures por entre Viana do Alentejo, Vila Nova da Baronia, Alvito e o Torrão, em que se andou de tasco em tasco, de taberna em taberna, de botequim em botequim, engolindo uma taça de vinho, comendo queijo, picando linguiça, trincando um tremoço, metendo conversa com os velhos das mesas ao lado.


Na altura, bebia-se Vila de Frades e Vila dos Gamas, os brancos, sem qualquer preconceito. Bebiam-se e sabiam muito bem. Naquela época, éramos muito mais prosaicos, muito mais simples, bem mais inocentes. Ficava-se satisfeito com pouco e tudo parecia saber bem.


Lembro que naquele dia, no do périplo, ao entardecer, perdeu-se a cabeça com um par de garrafas de Cartuxa branco. Sentados ao balcão, no Camões, em Baronia, foi a apoteose de um dia carregado de risos e gargalhadas, de histórias inventadas, bem ao género dos rapazes, de cumplicidades, de comer e beber, de tanta coisa que já está perdida e não se consegue recuperar. O vinho, este, naquela altura parecia ser qualquer coisa do outro mundo. E foi durante mais algum tempo. 

quinta-feira, outubro 01, 2015

Vou fazer um Vídeo

Lembrei-me há pouco que ainda não fiz um video sobre qualquer coisa. Até parece impossível. E para quem gosta de andar na crista da onda, é imperativo fazer uma filmagem, mostrando, desta forma, alguns dos dotes que, eventualmente, poderei ter e não saber. Daria, também, um ar de tipo moderno, multifacetado.


Não sei, assumo, é o que devo fazer. Uma entrevista? Uma sequência de imagens, acolitada por uma daquelas bandas sonoras já pré-feitas ou, em vez disso, por umas silhuetas bem curvilíneas? E por causa do inusitado aspecto que tenho, nada elegante, pança alargada e meio vesgo, julgo que faria boa figura, como pivot e/ou repórter. Seria, com certeza, uma mais valia.