segunda-feira, novembro 30, 2015

Comemorando: 25 anos

No meio dos imbróglios em que nos vamos metendo dia após dia, esquecemos a porrada de motivos que temos para comemorar. Muitos deles achamos que não têm a dignidade para ser festejados, comemorados com pompa e circunstância. Para celebrar, pensa-se repetidamente, tem que haver algo grande. Um pequeno suspiro ou o simples facto de respirar, viver e olhar não merecem ou não costumam ter direito a comemoração. Julgamos que são normalidades sem direito a momentos mais ou menos solenes. Direitos.

Vinho comemorativo dos 25 anos da Quinta de Cabriz. Um vinho superlativo, cheio de garra e que combina a força com a enorme frescura. Vinho que parece ter sido idealizado para crescer, evoluir durante anos e anos. Nesta fase está novo, muito novo. Profundamente jovem. 

Creio até que devemos festejar as feridas, as marcas que vão ficando incrustadas no corpo. Lembram-nos os erros, as falhas, as apostas perdidas, as desilusões, os enganos que fomos acumulando ao longo do tempo. São sinais de que vamos sobrevivendo, com maior ou menor dificuldade. Algumas dessas chagas são mantidas, sabe-se lá porquê, ainda abertas, por sarar totalmente. Convém que doam, para não voltarmos a repetir o mesmo. Até essas merecem celebradas. E muito.

domingo, novembro 22, 2015

O Vinho: Uma Arma da Grande Guerra

Fui encaminhado por um amigo, personagem com vastos de recursos intelectuais, capaz de tornar uma mera conversa num estimulante desafio e que escuta o meu palrar inconsequente de forma bem paciente, tal irmão mais velho, para um tema bem curioso. E por causa dos seus recentes estudos sobre o envolvimento da China na Primeira Guerra Mundial ou a Grande Guerra, orientou-me para um assunto que não nunca vi discutido, abordado ou aflorado pelos diversos comentadores de vinho da nossa praça. Na verdade, pouco se escreve sobre a história do vinho, a relação deste com o homem e a sociedade, nos mais diversos escaparates. Apraz dizer que há mais vida para além de...
Ora tomem nota de algumas curiosidades sobre a dimensão do consumo de vinho no decorrer da Grande Guerra Mundial, no exército francês. A tradução e interpretação é da minha responsabilidade. 


Segundo consta, os soldados do exército francês, no início da grande guerra, tinham direito a ração diária de vinho, sendo que a cerveja e a cidra seriam também consumidas, em larga escala, pelos soldados. Principalmente pelos nativos das regiões mais a norte de França, como a Bretanha. Inicialmente teria sido cerca de um quarto de litro, aumentada para meio litro em mil novecentos e dezasseis e, finalmente, para setenta e cinco centilitros em mil novecentos e dezoito. Para quem vinha das tais regiões mais a norte, este teria sido, provavelmente, o primeiro contacto com o vinho.  


Em mil novecentos e catorze, ano em que houve uma colheita abundante, foram oferecidos mais de duzentos mil hectolitros ao exército, por diversos produtores, com o intuito de aumentar a moral entre as fileiras do exército franco. Ainda no mesmo ano, o Ministro da Guerra da altura, Millerand, tomou a decisão de distribuir vinho entre os soldados, passando a fazer parte integrante das suas rações de combate.


Em mil novecentos e dezasseis, o consumo anual do exército francês foi de doze milhões de litros por ano. Impressionante. O esforço de logística, para a altura, devia ter sido enorme. É referida a existência de quatro mil vagões-cisterna para transportar o vinho. Sendo que o vinho era encaminhado para grandes armazéns regionais em Béziers, Sète, Carcassonne, Lunel e Bordeaux. De lá sairiam comboios que transportariam, em média, cerca de quatro mil hectolitros para diversos locais e onde depois seriam transfegados para barricas de duzentos e vinte litros. As tais barricas ficariam posteriormente acantonados junto das estações ferroviárias, para serem, eventualmente, distribuídas pelos soldados na frente de guerra. 


A importância e o volume do vinho consumido, durante a Grande Guerra, foi de tal ordem que as chefias militares recorreram, quase no final da guerra, à requisição de um terço de colheita anual, incluindo as colónias. 
O vinho bebido pelos soldados seria, segundo consta, uma mistura de lotes de várias proveniências: Mâconnais, Beaujolais, Languedoc-Roussillon, Marrocos, Argélia e Tunísia. Teria uma graduação média de nove graus. 


Em jeito de conclusão e estilo ligeiro, atreveriam-me a dizer que, na Grande Guerra, também houve uma vitória do vinho sobre a cerveja. Ou o vinho superiorizou-se à cerveja.

Fonte: Vejam alguns relatos da frente de guerra.

quarta-feira, novembro 18, 2015

Parte II: Quinta de Saes Caniças

Farto de ou da Touriga Nacional? Depende, da forma como ela é tratada, manipulada, apresentada. Sim, estarei farto da Touriga Nacional, se for servida de forma adocicada, plana, profundamente exuberante, excessivamente perfumada, tratada de igual maneira como as outras. Abastardando-a de tal forma que pode ser tudo e nada ao mesmo tempo. Sem qualquer laivo de personalidade. Assim e desta forma, também estou farto.


Este Caniças é, acima de tudo, um vinho que dá enorme prazer beber, pelo seu carácter apelativo, mas firme que possui. Não é certamente um monstro de vinho, perdoem-me a ligeireza na linguagem, mas é um belo vinho, onde a casta é tratada, parece-me, sem grandes arranjos. Tratada de forma descomplicada e simples. É o que é.


Vinga pelo equilíbrio, pela coerência que apresenta. E por menos de oito euros, está muito bom e aconselha-se.

domingo, novembro 15, 2015

Parte I: Quinta de Saes Reserva Branco

É provável que a colheita de dois mil e catorze fique registada, acho eu, como uma das interessantes para os vinhos brancos. Paulatinamente vou provando um ou outro vinho e fico com a ideia que só não fará bem quem, eventualmente, não quiser, não quis ou não soube. Os vinhos parecem-me frescos e tensos, com doses de acutilância muito generosas. No Dão, em particular, o cenário afigura-se muito prometedor.


Este Quinta de Saes é um puro exemplo da limpidez, da presumível pureza que um vinho branco deve ou devia ter. Conjuga, de forma bem coerente, um conjunto de atributos que vão desde a longuíssima frescura, a tipicidade, a profundidade, a elegância e a não menos importante capacidade de envelhecimento.


Temos aqui, a preço controlado, um modelo do que pode e deve ser um belo vinho branco do Dão. Apetece dizer que a receita do como se deve fazer não se perdeu. Anda é desvirtuada, há muito tempo.

quinta-feira, novembro 12, 2015

Morgadio da Torre

Sem qualquer cuidado no vocabulário escolhido, devo dizer que fiquei impressionado, admirado, surpreendido com este vinho. Fiquei impressionado, admirado, surpreendido porque não estava à espera, porque a expectativa era baixa ou não muito alta. O que me leva a pensar na razão da aquisição. Actos e comportamentos estranhos, reflectem, na maior parte dos casos, a minha enorme incoerência. 


Ando afastado, na generalidade, dos alvarinhos. O afastamento, deveu-se, acima de tudo, pela aparente falta de tensão, nervo e acutilância que pareciam exibir, nos últimos anos. Cimentei a ideia, eventualmente pouco fundamentada, que estava acontecer uma deriva no conceito, na abordagem à casta, tornando-a mais urbana, mais exótica, mais arredondada. 


Neste caso específico e sem querer estabelecer qualquer comparação com outros alvarinhos, encontrei o que não estava à espera e que particularmente aprecio. Um vinho branco quase másculo, coberto de tiques clássicos, despido de qualquer fruta exótica (espero não estar enganado), com uma frescura profunda a rasgar a boca em toda a sua largura. Um vinho branco que me pareceu ter uma enorme personalidade, bem como capacidade para envelhecer dignamente. 

segunda-feira, novembro 09, 2015

Ebriedade

Ebriedade! Estado que permite ao comum do mortal, soltar-se das amarras a que está sujeito, desde que nasce até que desapareça do cimo do chão. 
Ao coberto da ebriedade, tornamo-nos diferentes, para melhor ou para pior, deixamos cair as defesas, que balizam o socialmente correcto. O povo feminino costuma dizer que se queres conhecer um homem dá-lhe vinho. Tenho, assumo, que concordar com essa premissa. 

Belo espumante para uma sexta-feira à noite. Um tónico para o corpo, fazendo-nos entrar com um enorme sorriso no fim de semana. 
Há diferentes razões que nos encaminham até ao estado ebriedade: comemoração, felicidade, tristeza, para esquecer, para recordar. O leque de motivos é vastíssimo, sendo que, pessoalmente, o melhor motivo para a ebriez é não haver nenhum motivo. 


Bebe-se por que apetece e em alguns casos para ficar ausente do que se passa em redor, passando-se, desta forma, para uma dimensão onde, aparentemente, estamos melhor, mais alegres, mais soltos, menos pesados. O imbróglio são as horas seguintes. O regresso to the real life traz consigo um conjunto de danos colaterais: uma robusta dor de cabeça, devido ao aumento de peso que sofreu e olhos profundamente avolumados. O day after é assombroso. É também o único dia em que prometemos não voltar a repetir. Naturalmente, até à próxima vez.


terça-feira, novembro 03, 2015

Casa da Passarella: O Fugitivo Vinhas Centenárias

Antes da Ordem do Dia

Gosto de viver influenciado, profundamente dependente daquilo que gosto e não gosto. Não creio na independência. 

Há vinhos que, por uma razão ou outra, acabam por tornarem-se incontornáveis no percurso de alguém que goste (verdadeiramente) de vinho. São vinhos que trazem, de facto, mais valias, novas abordagens, novas visões ou tentam fazer ressurgir/recuperar métodos e tradições que tendem a desaparecer: back to the past. Dizem-nos que é possível, apesar de tudo, recriar, inovar. 


Quando se fala, em círculos mais restritos, de vinhos minimalistas, pouco intervencionados e desviantes de uma norma que tende a matar a diversidade, provenientes de vinhas bem antigas, onde o trabalho humano é desprezível e a natureza é assumidamente protagonista, este vinho é, sem qualquer cuidado nas minhas palavras, um perfeito exemplo. Cumpre as premissas que atrás foram superficialmente enumeradas. 


Será caso único? Claro que não. Mas é certamente mais um feliz acontecimento, do que se pode e deve fazer numa região que tem uma longa história, mas que opta, repetidamente e até à exaustão, por criar a régua e esquadro uma enorme falange de vinhos sem alma e sem carácter. Iguais lá ou aqui. Mas o que interessa, para o caso, é que estamos perante um dos melhores vinhos do Dão. Ponto!