segunda-feira, fevereiro 29, 2016

Carvalhas: O Branco da Quinta das Carvalhas

Serve o presente para, em breves linhas, deixar registado preto no branco algumas considerações sobre este vinho branco. 

Colheita de 2013
Um vinho carregado de juventude, cheio de força, de energia e com uma grande profundidade. Pareceu-me que teria enorme capacidade para evoluir no tempo, mostrando-me que o devia ter guardado para (bem) mais tarde. Iria, julgo, ganhar de forma exponencial. Mas as pressas.


Contudo e apesar do (enorme) arrependimento, a porra da gula domina-me, assumo com todas as letras e sem qualquer pudor que estava perante uma grande vinho branco do Douro. Uma abordagem que aposta essencialmente, pareceu-me, na frescura, uns dirão acidez, no profícuo carácter vegetal e mineral, relegando para plano subalterno a fruta. A que existe é essencialmente de aparência verde, ácida e cítrica. Um vinho que não será para todos, tal é o (feliz) desvio à norma. 

sexta-feira, fevereiro 26, 2016

Casal Figueira

Surpreendeu? Sim. Era um estrondo de vinho? Não, certamente. Mas o que importa? O que importa é a forma como o vinho foi cativando, a maneira como se foram apreciando (todas) as suas virtudes. Relevante foi o modo como se estabeleceu e reforçou a relação com ele. Sem pressas. 


Estranha-se, talvez, no início. Acha-se, até, que não é nada de mais, que servirá apenas de curiosidade. Que não valerá a pena despender (muito) tempo com ele. O tempo encarregou-se de provar o contrário.


Um vinho que apetecia farejar e deglutir até ao limite das possibilidades de um e do outro. Diria mesmo que existia ali qualquer coisa de sensual, de insinuante, de feminino. Com uma delicadeza estonteante. E socorrendo-me das minhas habituais expressões superlativas, cheias de tiradas sem nexo e sem fundamento, diria que tinha ali, definitivamente, o vinho da noite, apesar de não ter sido o melhor vinho. Incoerências, mais uma vez.


quinta-feira, fevereiro 25, 2016

Volúpia

Luxúria, prazer excessivo, o incumprimento das regras. O deboche, o deleite, a delícia, a lascívia. Estados que vedamos por causa de uma porrada de leis, regras, condutas. E assim passamos a maior parte da vida, agarrados ao socialmente correcto, numa lógica castrante, que tolhe a liberdade dos sentidos. 

No divino impudor da mocidade, 
Nesse êxtase pagão que vence a sorte,
Num frêmito vibrante de ansiedade,
Dou-te o meu corpo prometido à morte!

A sombra entre a mentira e a verdade...
A nuvem que arrastou o vento norte...
- Meu corpo! Trago nele um vinho forte:
Meus beijos de volúpia e de maldade!

Trago dálias vermelhas no regaço...
São os dedos do sol quando te abraço,
Cravados no teu peito como lanças!

E do meu corpo os leves arabescos
Vão-te envolvendo em círculos dantescos
Felinamente, em voluptuosas danças...

Florbela Espanca, in "Charneca em Flor" 

Agradável, fresco, perfumado. Porreiro para desbloquear, para começar, para embalar. 
É também, dizem, a deusa da virtude o que me parece ser um enorme contra-senso. O que se deseja é quebrar com qualquer pudicícia, com todo e qualquer virtuosismo. Contradições do Homem.

terça-feira, fevereiro 23, 2016

Casa de Mouraz: O Encruzado

No reino dos anónimos, mundo a que pertencemos, o que importa é aquilo que gostamos, que preferimos ou não. É pouco relevante se é consensual, se é ou não o que a maioria ou a moda dita. A condição de anónimo permite-nos que dizer que é deste que gostamos, porque simplesmente gostamos, porque temos uma qualquer inclinação, mesmo que não se consiga arranjar explicações fundamentadas, não se saiba puto da forma como é feito. Na verdade, tudo isso é irrelevante, quando simpatizamos ou antipatizamos com isto ou com aquilo. O povo diz e bem: caiu no goto.


Decididamente este vinho pertence ao meu núcleo restrito de vinhos que gosto bastante e que por conseguinte compro com muita regularidade. São vinhos que parecem ser, por razões que não sei explicar by the book, tendencialmente desavindos, provavelmente afastados do que esperamos ou do que estamos habituados a ver na maior parte dos encruzados estremes que costumam aparecer pela frente.


Fechando a rábula, o que importa, repetindo a minha ideia inicial, é que é um vinho que gosto de beber até ao fim, até ao último escorropicho. Fica assim registado o facto.

segunda-feira, fevereiro 22, 2016

Eterna Normalidade

E como está o mundo do vinho, ao fim de quase quinze anos de observação dos seus meandros? Na verdade, não consigo deslumbrar alterações significativas, consistentes e capazes de aumentar a diversidade no que respeita à promoção e divulgação do vinho em Portugal. E o que existe não tem a necessária força, ainda, para provocar uma efectiva mudança nesta matéria. Não sei se alguma vez terá. Depois tudo nasce e morre no mesmo dia, com uma velocidade feroz. Surgem projectos ou presumíveis projectos que são tão efémeros que a nossa memória não gasta tempo para os recordar. Esfumaçam-se no meio da enorme lixeira virtual. 

Muita coisa passou para plataformas de interacção social, mas na essência tudo parece continuar igual ou quase igual, com os mesmos velhos hábitos que subsistiam, antes do advento destas novas e messiânicas formas de comunicar. Fica a sensação que houve apenas um lifting mais ou menos profundo no visual. O estado das coisas é, portanto, de profunda e enraizada normalidade. Como em tudo em Portugal.

quinta-feira, fevereiro 18, 2016

Casa da Passarella: O Garrafeira Branco

Não há hipótese! É indubitavelmente um dos vinhos brancos mais bem conseguidos e mais surpreendentes do Dão e parece estar a tornar-se em objecto de culto. A falange de admiradores que gosta dele vai engrossando a olhos vistos. Ainda não vi uma única voz a levantar-se para negar a excelência do vinho. Atrevo-me a dizer, por isso, que as garrafas disponíveis deverão ser, neste momento, em número bastante inferior à procura o que pode criar problemas de fornecimento ao mercado. Será uma enorme chatice se formos confrontado com essa possibilidade. Espero que uma das causas não tenha sido o açambarcamento indevido por parte de alguma malta. 



Proponho, por isso, que se faça uma conferência com todos os interessados com o intuito de organizar uma reserva estratégica para acautelar, deste modo, uma quantidade minimamente aceitável para satisfazer os diversos pedidos. É que o ano só agora começou. Caso contrário, podemos assistir ao florescimento do mercado negro, onde uma garrafa disponível, deste vinho, poderá valer ouro. E era só isto que queria dizer.

quarta-feira, fevereiro 17, 2016

João Paulo Martins e os Pseudo-pensantes

Não sou capaz de ficar indiferente as estas palavras. Deixam-me incomodado e perplexo: "Foi na sexta feita passada que se entregaram os óscares do vinho português, desta vez em Sangalhos, no Centro Desportivo de Alto Rendimento, onde couberam 1020 pessoas sentadas. É obra. Os prémios, já se sabe, premeiam alguns nomes que são previsíveis mas há sempre outros que são inesperados. Por um lado o país é pequeno e os grandes, grandes vinhos não são assim em tão elevado número. No ténis, se a comparação é possível, é bem pior: são sempre os mesmos a chegar às meias finais dos torneios do Grand Slam e há centenas, milhares de jogadores no ranking. E se formos para o futebol nacional, a pobreza e falta de originalidade é ainda maior. Isto serve apenas para alertar algumas cabeças pseudo-pensantes que já começaram a destilar comentários na Net, local por excelência onde cada um tem o direito de escrever o que lhe vier à cabeça. É preciso é que falem, diria o célebre pensador..." 

William, ou apenas Will Sommers foi o bobo da corte de Henrique VIII ou Bobo do Rei 
Nunca pensei que passados mais de quatro dezenas de anos sobre o que aconteceu algures no tempo, fosse possível ser confrontado com tamanho incómodo. Diria, até, que são palavras reveladoras de muito pouco jogo de cintura. Denunciam, quiçá, o típico olhar de quem costuma colocar-se num ângulo superior sobre a populaça, esperando ser venerado, sem qualquer questionamento, sem qualquer dúvida. Coisa de deuses ou nobres Do tipo: Eu é que sei. Estejam, mas é, calados. Creio que serão, acima de tudo, sinais de provincianismo autoritário. 
Desta forma, os comentários da multidão são sempre despropositados. São uma chatice, pá! São actos de gente boçal que se acha no direito, sei lá, de fazer perguntas, manifestar, não sei, estados de espírito. Depois a Net, essa malvada, que permite a qualquer um dizer o que pensa, sem qualquer controle, sem qualquer visto de censura. Maldita liberdade de expressão que possibilita cuspir para o ar meia dúzia de observações sem qualquer fundamento, sem qualquer sentido e sem que ninguém diga que isso não se pode fazer. Piores são os pseudo-pensadores, perigosos provocadores, que têm a veleidade de agitar o povo que trabalha descansadamente e sossegadamente nos campos. Que sejam enviados para os calabouços e castigados severamente. Ostracizados, se possível. Ala.
E em jeito de compromisso, prometo solenemente que não voltarei a falar destes assuntos, tão depressa. Irei remeter-me a um silêncio compulsivo, pois tenho com medo de ser castigado em algum auto-de-fé. Ou pior. Ser olhado de soslaio e desdém, como se fosse um leproso.

terça-feira, fevereiro 16, 2016

Quinta dos Roques Bical

O acto de começar qualquer coisa está quase sempre coberto de muitas dúvidas, de muitas incertezas, de muito desconhecimento. A experiência, a repetição, o fazer e o desfazer contribuem para a evolução, para o melhoramento. Infelizes ou felizes daqueles que ficam satisfeitos com o que já têm, com o que fizeram logo no arranque. Ele não é mais que isso: o preâmbulo. 


É verdade que, também, olhamos para o primeiro, apesar das suas falhas, com carinho, com mais complacência, com tolerância. É normal que assim seja.
Mas também é inegável que o amadurecimento do conhecimento e da técnica contribuem para o melhoramento de qualquer coisa. Faz parte da evolução. 


E toda esta lengalenga serviu, apenas, para constatar ou assumir, preto no branco, que este Bical está bem mais interessante, bem mais conseguido, bem mais balanceado, bem equilibrado que a primeira colheita. O acto comparativo permite-nos chegar a esta pretensa conclusão. Apesar de estar ainda imberbe, os sinais que transmitiu foram francamente convincentes, levando-me a afirmar de forma desbocada que temos vinho.

segunda-feira, fevereiro 15, 2016

Revista de Vinhos e os Prémios de Excelência

Durante o fim de semana foram publicadas em diversos locais a listagem dos vencedores dos prémios de excelência da Revista de Vinhos. Não querendo em entrar em considerações enviusadas ou polémicas gratuitas, pois quem ganhou ganhou, mereceu, fiquei com a sensação de nada de novo, de previsibilidade, de normalidade, após a revisão dos nomes dos laureados. 
Não fiz e nem vou fazer, por isso falo de cor, o balanço de todos os prémios de excelência dados até ao presente, mas fiquei com a ideia de que, salvo aqui e além, os prémios têm sido atribuídos a um conjunto de actores mais ou menos estabelecido, mais ou menos definido ao longo dos anos.



Apraz dizer, por isso, que são ou serão efectivamente os melhores dos melhores. Um pouco como na Liga dos Campeões, em que os candidatos à vitória são sempre ou quase sempre os mesmos. Com pequenas alterações que nos fazem largar umas palmas, por momentos, bem mais efusivas. 
E Douro domina, o Alentejo segue atrás, colado. As outras regiões partilham o resto, o pouco que sobra. Por isso, entre o que se deseja e se crê, vai uma enorme distância com a realidade. A realidade é esta. 

quinta-feira, fevereiro 04, 2016

Não percebi! Preciso de perceber

Professor Virgílio Loureiro diz o seguinte no blogue do Hugo e que passo a citar: "Só quem não quer perceber é que acredita que a prova pode ser racional. Alguns ingénuos (ou principiantes, ou ignorantes) talvez acreditem na "objectividade" das notas atribuídas aos vinhos, mas quem as atribui há muito que não é ingénuo." 
Sem querer avançar com teses conspirativas desnecessárias, creio que tais comentários apontam, assim me pareceu, para mais qualquer coisa numa simples nota de prova do que uma simples nota de prova. Que, e a leitura é minha, ao ser classificado este ou aquele vinho e por arrasto este ou aquele produtor, são ou estão a ser ponderadas determinadas variáveis que podem ser mais ou menos desprezíveis e que influenciam ou não o resultado final da dita nota de prova. Reconheço que possa estar a fazer uma interpretação (muito) abusiva e indevida das palavras escritas pelo autor.


A titulo pessoal, sempre assumi que falar de um vinho e classificá-lo, despido de qualquer laivo de influência, é tarefa para predestinados. De qualquer modo, importa perceber o que é que o professor quer dizer ou queria dizer. Eu, tal coscuvilheiro, gostava de saber, ser esclarecido. Se não, ficamos como se costuma dizer na gíria popular, a meia missa e a pensar no que não se deve pensar. Ou, ainda, no universo das bocas para o ar. É que eu posso atirá-las.

quarta-feira, fevereiro 03, 2016

Dias Tramados...

A pior coisa que pode acontecer a um gajo é acordar irritado, pronto para disparar em todas as frentes. Fica-se, logo pela madrugada, com vontade de gritar bem alto uma porrada de impropérios, sem qualquer razão aparente. Atirar para o ar o que vai na porra da alma, se a tiver. Clamar por tudo e nada. Pior, ainda, é estar na casa de banho completamente lixado com tudo, a olhar para o maldito espelho que nos diz quem somos, e sem vontade de fazer nada. Mesmo nada.


Vem ao de cima o lado mais primário, mais rude, sem qualquer laivo de educação, sem qualquer regra de boa conduta. Quebrar todas e mais algumas normas de menino falsamente bem comportado. E um tipo fica mais encolerizado, porque tem que manter a porcaria da aparência. Uma tremenda chatice. Vai ser um dia de merda...

segunda-feira, fevereiro 01, 2016

Quinta do Cardo: O Espumante

Para começar a semana, num registo descomprometido, leve e sem grandes rodeios. Coloquemos esta pequena homilia no grupo de aconselhamentos que costumamos fazer aos amigos, aos vizinhos, em modo de dica de café da manhã. 
  


Um espumante que francamente gostei e sorvi até à última gota, até à última bolinha. Não importa como foi feito, se foi manipulado, alterado, martelado para ser o que é. O que sei, o que importa, é que bebi este espumante com grande prazer. Curti a secura, apreciei o controle de doçura, revelando uma austeridade que não estava, de todo, à espera. Um belo espumante. Fiquei fã. O resto serão deambulações.