sexta-feira, abril 28, 2017

Quinta da Lomba

Conheço a Quinta da Lomba desde que me conheço como gente. Desde que comecei a andar. Desde que soletrei os primeiros articulados verbais. Este espaço faz parte do meu imaginário. A quinta fazia e faz paredes meias com propriedades familiares e foram bastas as vezes que por lá andei a fazer poeira, a sacar uns bagos de uvas para comer no pico da tarde. Tropelias de rufias. 


Assisti à decadência, à formação das ruínas, até cair no abandono. Ainda assim, as suas uvas, em 2008, deram origem a um dos melhores vinhos brancos do Dão. Um vinho feito pela mão de João Tavares de Pina.


Agora faz parte do universo Niepoort. E desde a sua aquisição pelo actual proprietário que está a ser feito um trabalho de recuperação dos edifícios, das vinhas, dos muros, de todo o património que a quinta possui. Numa linha minimalista, sem grandes arrojos arquitectónicos, sem grandes modernices. E ainda bem. Consegue-se, assim, sentir aquele lado mais rupestre, mais bucólico e despojado da Serra. Existe coerência, respeito, enquadramento. E é com satisfação que observo a sua reedificação, o seu reaproveitamento. Num território que morre aceleradamente, qualquer investimento, seja ele qual for, é de registar.


Sobre as amostras de vinho que provei, mas em bruto, vindas das cubas de inox, dos tonéis, das barricas que são usadas, dos antigos lagares de cimento, ficou a ideia que temos aqui um conjunto de projectos que vão de encontro ao que Dirk pensa sobre o vinho, em que a elegância e a frescura parecem ser a linha mestra. Com muitas semelhanças, perdoem-me os entendidos na matéria, ao que é feito na vizinha Quinta de Baixo. Sendo, naturalmente, o desígnio mais recente de Dirk, iremos assistir com toda a naturalidade a afinações, a novas ideias, a novos vinhos (aquele Vinhas Velhas e Alfrocheiro). Mas o que importava mais, naquele momento, era calcorrear novamente cantos e recantos de um lugar que conheci muito bem. Digamos que é um lugar da História. Da minha.

quarta-feira, abril 26, 2017

Trivialidades de um gajo

Não sei se acontece convosco, mas existem vinhos e determinadas combinações gastronómicas que só fazem sentido se estivermos no local apropriado. No lugar deles. Costumava dizer que estávamos perante vinhos e comidas étnicas, tribais.


Fazem sentido, têm coerência, por alguma razão, apenas num determinado lugar. No seu lugar. E enquadrados pelo cenário certo, adquirem uma dimensão impossível de ser copiada noutros espaços. Roçam quase o superlativo, mesmo sabendo que não são mais do que trivialidades de um povo. E minhas.


Já fiz a tentativa de reproduzir os mesmos momentos, as mesmas situações noutros locais e tenho que assumir que o prazer não é comparável. Nada sabe igual. Fica-se descontextualizado, faltam outros adereços, como os cheiros, as vistas, as pessoas. Cai sobre nós um certo vazio, provavelmente causado pela impossibilidade de não estar lá, no lugar certo.

terça-feira, abril 25, 2017

Since 24 de Abril de 2006

A liberdade permite-nos dizer tudo ou nada. A liberdade permite-nos dizer o que nos vai na alma, correr riscos, gritar, vociferar, chorar, rir, brincar. Largar as inúmeras angústias, festejar as poucas alegrias. É pura terapia, um escape, uma bola anti-stress. A liberdade permite-nos ser independente no meio das nossas profundas dependências. Permite-nos dizer que somos influenciados, que temos amigos, que somos parciais, que não seguimos em fila indiana. Permite-nos achar isto ou aquilo sobre tudo e mais alguma coisa. 


A liberdade permite-nos afirmar que não se quer estar aí ou ali, que se quer estar aqui ou acolá, que se quer ir por outro caminho. Permite-nos pensar sobre tudo ou sobre nada, mesmo que no final se esteja errado. A liberdade permite-nos extremar ideias, mandar bocas, mesmo sabendo que mais tarde irá aparecer uma qualquer factura para ser cobrada. Mas que se lixe, depois logo se vê. E com isto só faltam mais 11 anos. Passa rápido.

sexta-feira, abril 21, 2017

Dizem que gostam de vinhos finos mas ...

Por entre os diversos episódios relatados por Dirk Niepoort na Revista de Vinhos - A Essência do Vinho, e que são conhecidos, saltou à vista uma passagem (que ninguém pegou), sobre a eventual mudança de perfil dos vinhos do Douro, no particular, mas que podemos extrapolar para outras regiões e que transcrevo. "(...)Tal como o Priorat, o Douro estava a seguir um caminho errado, com vinhos muito pesados e extraídos, a prometer ao mundo que iam envelhecer. Dez anos depois começamos a ver que não é assim, que talvez fosse melhor vinhos mais finos, mais precisos, menos alcoólicos, com mais acidez e menos madeira. Vejam o Alvaro Palacios. Fazia vinhos monumentais, que nunca gostei muito. Mudou o perfil e agora está a fazer vinhos fantásticos. Mas teve a coragem de mudar! O mundo está a mudar. Hoje, um grande vinho tem que ser um vinho equilibrado, fino, que envelheça bem."

Imagem retirada da RV - A Essência do Vinho
Depois Dirk sobre o assunto avança com a seguinte tirada, por causa de alguma incompreensão que sente em relação aos seus vinhos (dedução minha): "(...) Acho que os jornalistas estão muito enganados. Vão muito pelo grande vinho, não tanto pelo que dá gozo beber. Dizem que gostam de vinhos finos mas atribuem as pontuações mais elevadas aos vinhos pesados e alcoólicos. Há uma fantochada muito grande. Mas é o que é, é normal." Para quem serão os barretes?

Imagem retirada da RV - A Essência do Vinho
Tendo a crer, sem ter os dados todos, que o autor poderá ter uma certa razão. Na verdade, existe uma enorme distância entre o que são as novas correntes, o que se pede, o que se deseja aparentemente e aquilo que acontece efectivamente na realidade. Por vezes, acho, que no final das contas, os vinhos que continuam a dar mais nas vistas são aqueles que usam da força e da exuberância para nos chamar a atenção. Vinhos que foram feitos para correr a alta velocidade em pequenas distâncias. Não mais que isso.

quarta-feira, abril 19, 2017

Quinta de Camarate: Branco Seco

Será provavelmente o vinho branco da PS (Península de Setúbal) que consumo mais vezes. É eventualmente um dos vinhos brancos da região com maior registo de colheitas feitas, fora daquela gama mais comercial, onde pontificam, por exemplo, nomes como João Pires, BSE, Lancers, Catarina (...) e que eram aquelas escolhas óbvias de quem ia a um restaurante ou para uma pândega entre comparsas. E assim de repente, veio-me à lembrança, agora mesmo, o Cova da Ursa. Vinhos incontornáveis, pelas mais diversas razões, na PS. No universo das opções, das tendências pessoais, inclinei-me sempre para o Camarate. Uma questão de gosto, naturalmente.


Será escusado dizer que é dos vinhos que mais gosto da região. Consistente e que parece aguentar a passagem dos anos, de forma digna. Este 2013 mostrou-se adulto, com aromas complexos e cheio de frescura, melhorando, vejam lá, nos dias seguintes.


Resumindo a coluna de hoje, digamos que é um dos portos que escolho para ancorar com segurança. Basicamente um lugar comum para mim e para outros tantos. E isso basta-me.

segunda-feira, abril 17, 2017

Foram com muita sede ao Pote?

E prontos, saiu a primeira edição da Revista de Vinhos - A Essência do Vinho e uma coisa saltou logo à vista na capa, para além do material de que é feita: deixou de ter o subtítulo Para Apreciadores Exigentes. Sendo a primeira publicação com outra equipa é quase impossível avalizar de forma sustentada o novo projecto, as suas ideias e opções que irão ser tomadas no futuro. Contudo, a sensação que tive ao passar os olhos pela revista é que há um longo percurso a fazer e eventualmente muitos ajustes para concretizar. Ainda assim, avanço com algumas considerações.
Para esta edição devia ter havido, acho eu, muito mais cuidado na escolha dos temas para os artigos de opinião e reportagens, o que cimenta a minha convicção, muito pessoal, de que alguns dos conteúdos publicados agora, já estariam feitos e preparados para serem lançados na extinta Wine. Estava à espera de bem mais. Ok, uma reportagem com Dirk Niepoort é sempre um trunfo, mas só isto? E a Jancis? Podia ter sido desafiada a escrever sobre outra coisa bem mais significativa. Parece-me um autêntico desperdício de recursos. Basicamente, procurei por conteúdos e não os encontrei. Esqueceram-se que a primeira impressão conta muito?



Fiquei com a profunda crença que a nova equipa editorial trabalhou este número, sem rever o que já tinha sido publicado na RV no passado, pois só assim se justifica que surja outra vez uma reportagem sobre a Bacalhôa. Seria mais um artigo que já estava preparado para sair na Wine? Quase apetece extrapolar para outras situações: será que alguns vinhos provados e classificados para este número, já o tinham sido para a Wine ou para a RV? Terá havido revisão de artigos, reportagens e notas de prova já publicados? Terá havido reflexão sobre eventuais confusões que possam surgir no leitor e no produtor? Ficam as minhas dúvidas.


Os selos de garantia, tipo Boa Compra, mantêm-se, sendo que agora temos um ?novo? que é o Altamente Recomendado que provavelmente terá migrado da Wine. As selecções Para a Mesa e Para a Cave também se mantiveram, bem como as escolhas pessoais de cada provador. Mudou apenas o grafismo que pessoalmente não me agradou. Uma questão de gosto. 
No que respeita a propostas de enoturismo, a recauchutada Wine ou RV, não sei como as adjectivar, não publica qualquer referência. Opção editorial? Mantém as colunas sobre restaurantes e respectiva classificação por itens. Creio que é outra migração da Wine, salvo erro. Reparei que temos páginas com receitas de culinária o que achei, no mínimo, curioso. 


Bom, resumindo e baralhando e descontando o facto de estarmos perante algo novo com nome já antigo, tenho que partilhar que estava à espera de mais. Muito mais. No essencial o que vi foram flashes da revista Wine (que não compro há muito tempo), com o aproveitamento de alguns gadgets da RV, o que é manifestamente muito pouco para quem ambiciona ser um projecto de referência. Para já, diria que a revista Wine foi apenas forrada com a capa da RV. E como tal não basta. 
Sem saber como vai ser a primeira edição Vinho - Grandes Escolhas, apetece-me dizer que o arranque da RV - A Essência do Vinho foi muito titubeante, confuso e que não nos deixa perceber qual será o seu verdadeiro foco. Ouço falar no mundo Lusófono. 
Parece-me que deram 45 minutos de avanço aos seus concorrentes, o que lhes pode sair bem caro. É caso para dizer que foram com muita sede ao pote. Aguardemos, pois então, pelas cenas dos próximos capítulos. E eu que já não comprava uma revista de vinho há uma porrada de tempo? Sim senhor...

sábado, abril 15, 2017

No Conforto da Tribo...

São momentos de profundo equilíbrio emocional, de grande satisfação. Estar junto da tribo, protegido por ela, rodeado de múltiplos motivos que reportam a memórias, catapulta-me para um estado de felicidade que quase pensamos não existir. Assumidamente não sou bicho da cidade. Não curto o rebuliço, o barulho da grande urbe, as passarelas da vaidade. Está-se literalmente longe da vista e do longe do coração. Não se quer saber. Os problemas, sejam eles quais forem, surgem muito menos prementes, quase que não queremos saber deles. Que se lixem!


Na terra da tribo conseguimos recordar a simplicidade das coisas, aquilo que, em tempos, comemos e bebemos. As lembranças das pessoas que se levantaram da mesa, sem ordem, são muito menos doridas. É-se muito mais prosaico, muito mais despojado de artefactos, mas muito mais feliz. 


A porra disto tudo, é que o tempo não volta para trás, não se pode reescrever novamente a história, não se consegue obrigar o tempo a parar. O gajo não ouve e parece que corre cada vez mais veloz.

sábado, abril 08, 2017

Planeta: Dedicado a um ...

Tenho que assumir uma coisa perante todos vós. Tiro o chapéu a quem teve a brilhante ideia de criar o conceito de vinho de ou do amigalhaço. Penitencio-me, antes de tudo, por não ter tido a capacidade e a desenvoltura intelectual para me lembrar de tal coisa. Imperdoável da minha parte esta falha.

Gostei francamente do vinho. Iodado, com uma palete de aromas algo diferente ao que estamos habituados. Num bom estado de finura e complexidade. Impressionante a acidez.
E como gosto de aproveitar as boas ideias, nada melhor que dedicar este post a um amigalhaço que, segundo a peta que me enfiou, levou uma garrafa de vinho para eu beber. Assumo que andei durante muito tempo a chorar ao pé dele, dando-lhe a ideia que gostava de o beber. Do tipo ai e tal que nunca bebi nada disso.


Na verdade e mantendo a linha coerente deste tablóide, este post não tem qualquer utilidade, não serve para coisa alguma. Serve apenas para agradecer ao tipo que tinha a garrafa guardada e a levou para uma tainada. Por isso, obrigado, pá!

quinta-feira, abril 06, 2017

Júlio Bastos: A Impossibilidade de ficar indiferente!

Independentemente do que pensamos gostar ou não gostar, existem vinhos que não nos deixam ficar indiferentes. Bloqueiam qualquer vontade de pensarmos ou dizermos esperem aí que não é bem assim. São vinhos que apelido de superlativos. São literalmente vinhos que possuem uma dimensão ímpar. Grandes na estatura e dimensão e em que um gajo fica literalmente impressionado. Ouch!



Resumindo, para não enfastiar os mais sensíveis (que pelos vistos são muitos), a verdade nua e crua é que gostei pra caramba deste vinho. Foi impossível ficar apático, mesmo que em tese (seja ela qual for), não tivesse à espera de tamanha reacção. A minha. Que grande vinho.

quarta-feira, abril 05, 2017

Adegga e Vinho - Grandes Escolhas: Juntos no Digital?

Devo dizer que fiquei sem palavras quando abri o FB e vejo escarrapachado preto no branco (espero não ter lido mal) que Adegga irá colaborar com a equipa que liderava a Revista de Vinhos até há pouco tempo. Devo dizer-vos que esfreguei bem os olhos. Vão colaborar, segundo parece, com Vinho - Grandes Escolhas, na área do digital. Parece que o entusiasmo é grande de parte a parte. Pessoalmente não sei o que dizer, o que comentar, o que pensar. Não arrisco ir mais além, pois o risco de ser mal interpretado é enorme. Estou literalmente admirado.


No entanto, é caso para pensar que tudo afinal pode ser mesmo possível. Era só mesmo isto que tinha para dizer. Aguardemos, pois então, pelas diversas novidades. 

segunda-feira, abril 03, 2017

Dizem maravilhas!

Pelo que tenho visto e ouvisto é uma das últimas maravilhas do mundo do vinho português. Assim qualquer coisa ao nível da pedrada no charco. Anda meio mundo louco e provavelmente com toda a razão. Para já, só quero dizer que fiquei assim, como dizer, meio desiludido, pouco convencido. À espera de um pouco mais. De mais qualquer coisa, não sei bem o quê. Basicamente, fiquei sem saber o que dizer dele. Cheira-me que foi inaptidão pessoal.



Pelo que sei este vinho é um entrada de gama (+10€) e como tal  não vou fazer extrapolações, sobre o resto da prol. Tive, portanto, acesso a uma mera nota introdutória. Vou esperar, por isso, por novas oportunidades. Se mudar de ideias, volto cá para fazer mea culpa, como fiz noutras ocasiões, sem qualquer problema. E era só isto.

domingo, abril 02, 2017

São coisas minhas!

Este é um momento só meu. A foto é simbólica, íntima. Para vocês será apenas uma foto mal tirada, com meia dúzia de apetrechos sem qualquer ligação entre eles.


Ao rever algumas memórias, fixei-me nesta foto e embrulhei-me no meio de um redemoinho de sentimentos contraditórios. Nesta mesa, em seu redor, estiveram sentados os poucos que ainda restam e os que vieram ocupar o lugar daqueles que já não estão presentes. Aqueles que se foram embora sem autorização. Percebi que ainda estou profundamente zangado com eles. Foram-se embora, sem dizer adeus, sem pedirem desculpas por irem mais cedo. Foi uma enorme falta de educação. Fiquem bem, o blogue regressa para a semana.

quinta-feira, março 30, 2017

Bacalhôa Superior 2002: Epá, confirmo que é mesmo bom!

Num registo mais ligeiro e para encerrar a jorna. Não vos irei chatear mais com bacoradas, aqui no blogue. Só para a semana. Só se surgirem, de um momento para o outro, novidades sobre o que vai acontecer nas velhas e novas revistas. Estou ansioso por saber quem são os plantéis. Aguardemos, então, pela saída de fumo da chaminé.


Epá malta, tenho que assumir publicamente que estou completamente de acordo com o pessoal que trabalhava na antiga RV, quando disse que isto era um belo moscatel. E é mesmo, confirmo (ehehehe). Não sei se vale dezoito valores. Não faço ideia e nem me interessa. O que importa, de facto, é que é um moscatel do caraças, que consegue conciliar de forma quase irrepreensível a doçura e a frescura. 


Guloso, sem ser enjoativo. Com uma panóplia de aromas e sabores que cativam, de uma forma quase chocante. Dá ideia que nunca acabam. Impossível ficar indiferente. O melhor disto tudo é que estamos perante um vinho que custa qualquer coisa como dezasseis euros. É caso para dizer que temos aqui um vinho para comprar até mais não. É que isto é mesmo bom. E agora divirtam-se.

quarta-feira, março 29, 2017

PAPE: Pequenas Considerações

São breves notas que servem essencialmente para registar e partilhar aqui no blogue a prova e o momento. Para mais tarde recordar.
Álvaro Castro é figura incontornável no Dão. Goste-se ou não da personagem, temos que assumir que desempenhou e desempenha um papel fulcral, a par de outros, na renovação dos vinhos da região. Um experimentalista que consegue surpreender-nos colheita após colheita, com uma panóplia de vinhos cheios de carácter e personalidade. Tem sempre algo novo para nos apresentar.


PAPE, para os mais distraídos, é conjugação das iniciais referente a Passarella e a Pellada. Um vinho que criado a partir de parcelas distintas em que a Touriga Nacional (Vinha do Outeiro - Passarella), a Baga e Tinta Roriz (Pellada) marcam presença. A primeira colheita deste vinho foi em 2002, que reportei aqui há muitos anos. Recordo que foi um vinho muito marcante na altura. A voracidade de consumir tudo e mais alguma coisa, naqueles tempos, fez com que não guardasse nenhuma garrafa para mais tarde recordar. Coisas de glutão.



E que ilações podemos tirar de uma prova em que se provaram todos os PAPE, com a excepção da colheita inicial? A conclusão é muito simples e fácil de tirar. Estamos perante um vinho que se caracteriza essencialmente pelo equilíbrio a todos os níveis. A fruta e a madeira, sustentados por um nível de frescura exemplar, combinam de uma forma bastante harmoniosa. Um vinho que ganha ainda mais elegância com o amadurecimento em garrafa, como deve ou deveria ser um vinho do Dão.
É claro que existiram diferenças entre colheitas, mas que pessoalmente não foram significativas, não foram suficientes para dizer que esta ou aquela se apresentava a um nível muito abaixo ou muito acima das restantes. Centrei-me no global, no geral, procurando pontos em comum. E eles eram muitos, o que reforça a ideia de termos aqui um vinho coerente e consistente. É caso para dizer que os trinta euros que custa sensivelmente este vinho estão muito bem empregues.


Nota final para o tipo que tem estas ideias. Mais uma vez teve a capacidade para organizar mais uma prova deste calibre. Puro trabalho de prospecção e enorme dedicação aos assuntos dos copos. Salvé pá!

terça-feira, março 28, 2017

É claro que gostamos de tudo!

Outra das modas que se instalou é o eclectismo. É obrigatório estar disponível para beber e comer de tudo, para assim compreender melhor e saber mais. É claro que também é (muito) importante gostar desse tudo e dizê-lo, mesmo que eventualmente não se goste de facto. Mas fica bem dizer que se entende, mesmo que lá no íntimo se pense precisamente o contrário. Um pouco à semelhança do esforço que fazemos para evitar qualquer sinal exterior de desagrado, vulgo careta, que nos denuncie, quando engolimos algo que não gostamos.


Mas é bonito ser ecléctico. Fica bem e parece bem. Dá assim um ar de gajo conhecedor, ponderado e equilibrado. Com mente aberta, mesmo que lá no fundo lhe tenha custado a engolir.

segunda-feira, março 27, 2017

Rufia

Não me venham com histórias, de gente bem comportada, mas uma boa briga faz bem. Alivia o stress. Numa boa briga, temos a hipótese de deitar cá para fora tudo o que nos incomoda e que espicaça a úlcera. É literalmente tirar o pipo da panela de pressão e aliviar. Ficamos sem filtros, dizemos o que nos vai cá dentro, sem pensar nas consequências. No calor da briga, fica-se cego, em que o lado mais instintivo prevalece sobre o que é socialmente aceite. Só mais tarde se avaliam as mazelas. Uma boa briga, tem um enorme efeito terapêutico.


Faço o mesmo paralelismo com os vinhos. Gosto (muito) de vinhos que provocam um tipo, que instigam. Que brigam, que se comportam como uns autênticos Rufias. Irritam-me, sobremaneira, os vinhos super bem feitos, super consensuais, super exuberantes, mas despedidos de alma e carácter. Um pouco como aquelas modelos, que só têm interesse quando a sua boca está fechada. Depois de aberta...


Fico possuído, quando me dizem que determinada porra é do caraças, quando muitas vezes não passa simplesmente de um vinho de receituário. Feito a medo, com medo de ser diferente. São como aqueles putos que dizem sempre sim ao professor. São bem mais apaixonantes os brigões, os malandros, os que contestam. São indomáveis. Possuem aquela coragem que nos falta e que invejamos. Apenas não os queremos perto de nós.

domingo, março 26, 2017

A Ditadura do Lacre

A ditadura do lacre. Quando é em excesso, perde a graça. Assim do nada, começamos a ver uma porrada de vinhos com lacre no gargalo. O lacre parece ser considerado como algo essencial para que um qualquer vinho transmita mais classe. Chega-se ao exagero de lacrar espumantes. Algo que não tem qualquer sentido, parece-me. 


Epá malta controlem lá a quantidade de vinhos com lacre no gargalo. Escolham mesmo só um vinho ou outro. Lacrar a garrafa não tornar melhor o vinho. Ou torna? Ou é só mesmo uma questão de moda, para não ficar atrás do vizinho? 

sexta-feira, março 24, 2017

Tive que reforçar o stock de Pipocas

Epá acordei estremunhado com o barulho de tanta novidade. Entre a Velha Revista de Vinhos e a Nova Revista de Vinhos (que se vai chamar Vinho - Grandes Escolhas ???), a sacra-aliança entre a Masemba e a EV-Essência do Vinho e o fim da revista Wine, devo dizer que as coisas estão muito giras lá no meio do mundo profissional. Aquele que vive declaradamente à conta do vinho. 
Às claras, agora, vamos observando as mudanças que vão acontecendo. Nomes velhos, nomes novos. As mesmas equipas, outras equipas. Eventos que vão ser novos em locais antigos, eventos antigos que irão acontecer, quiçá, em novos locais. Até se falou de uma possível reedição da velha e saudosa reconquista feita pela malta lá de cima. 
Tudo isto se passa, vejam lá malta, no meio das redes sociais. Aquele local onde costumamos lançar uma boca. O nosso recreio. De um momento para o outro, vemos distintas figuras a marcarem terreno, a largarem piadas (alguns precisam de afinar a coisa), a partilharem links, a mandarem bocas para aqui e para ali. E eu que pensava que estas salganhadas eram um privilégio só nosso. Está mal. Afinal eles divertem-se da mesma maneira que nós. É giro. É muito giro, devo dizer. 


Apesar de ser uma tarefa demorada, não deixa de ser engraçado, também, espreitarmos para ver quem dá os parabéns a cada um dos lados e os acompanha com votos de sucesso e de fidelidade eterna. Mais giro, ainda, é vermos que existe uma porrada de malta a felicitar e a fazer juras de amor em ambos os lados da barricada. Outros simplesmente metem like em todos e mais alguns. Há que prevenir. Tenho que vos confessar que tive de reforçar o meu stock de pipocas, porque vamos ter muitas sequelas, pois o enredo parece ser denso. Vamos ver se a capital do império vai aguentar com tudo isto. É muita gente junta. Agora sim, bom fim de semana, que amanhã vou beber copos. 

quarta-feira, março 22, 2017

Quem está mal que se mude...

Há dias a matutar com isto. Uma das grandes falhas para quem gosta de vinho em PT é a quase ausência de arrojo na opinião. Comenta-se e critica-se muito pouco. O que se faz, cada um à sua maneira, é descrever, com mais ou menos flores e muito superficialmente, este ou aquele vinho, esta ou aquela apresentação, esta ou aquela situação, este ou aquele lançamento.
Quando se esbarra contra assuntos de maior melindre, a tendência é para virar a cara e assobiar para o lado. Queima. Ficamos resumidos a ovações. Ovaciona-se tudo, dá-se os parabéns por tudo e por nada. Fica-se com a ideia que vivemos numa dimensão awesome.
Fico com a impressão que a malta, seja ela qual for, dá-se mal com o comentário, seja ele esclarecido ou não, seja ele especializado ou não. Dá-se mal, acima de tudo, com o comentário que não seja concordante, que não esteja enquadrado pela bitola da maioria. Provoca incómodo e é considerado incendiário e gratuito. Aprecio, devo dizer, quem discorda e que no final tem coragem para beber um copo, sem rancor pelo o seu contendedor.


Como consequência, somos confrontados, eu sou, com uma realidade que é cada vez mais normalizada, sem qualquer rasgo de genialidade, onde o comportamento inócuo impera. Um estilo opinativo que não cria ondas e satisfaz. São as tais opiniões equilibristas que tem como finalidade não melindrar e deixar contente ou satisfeita toda a gente. Fica no ar a ideia de que o objectivo é ter direito a uma parte do bolo, independentemente se é uma migalha ou uma fatia bem mais robusta. Mas quem não gosta de participar numa festa?
Se do lado de lá (o do profissional, no sentido lato), até aceito e compreendo alguma contenção, pois a teia de interesses (sem qualquer sentido pejorativo) é grande, nunca compreendi, ao fim destes anos todos, que do lado de cá (o do consumidor blogueiro ou não) se evite sistematicamente dar uma opinião mais assertiva. Muitas vezes, bastaria um simples não gosto ou não concordo ou ainda acho que não é bem assim para animar a coisa. Será assim tudo tão bonito? Nunca consegui compreender. Mas como se costuma dizer, quem está mal que se mude.