quarta-feira, fevereiro 28, 2018

Conciso por Niepoort

A procura pela identidade da terra e da região tem sido um dos desideratos da equipa de Dirk Niepoort na Quinta da Lomba, em Gouveia. Se numa fase inicial, o projecto parecia-me meio titubeante, fica a ideia, agora, que está a entrar numa fase muito mais interessante, mais cimentada, mais clara no objecto.


Os vinhos estão a ganhar dimensão e reproduzem quase ipsis verbis todo um território que conheço, desde tenra idade. Coerentes com a filosofia há muito adoptada por Dirk, os Concisos são vinhos feitos para se beberem de fio a pavio. 


Proveniente de vinhas muito velhas, entalhadas no granito, à vista da Serra, mostra ser um vinho imensamente fresco, profundamente esbelto, que nos transmite uma enorme sensação de limpeza e de vida. Digo, que se lixem os mais sensíveis, que temos aqui um vinho que alia a elegância e pureza, de forma irrepreensível. É do agrado de todos? Não, não será. Mas como já disse, que se lixe. É um vinho que está cada vez melhor, mais definido, mais personalizado.

segunda-feira, fevereiro 26, 2018

Faz Pensar...

Enquanto a malta do vinho, made in Portugal, que brinca nos blogues ou noutros locais da internet, luta por umas míseras visitas diárias ou por uma mão cheia de likes, se for no facebook, existem outros que conseguem ter uma projecção impensável, noutros domínios. Sim, não me venham com a história de que ai e tal escrevo só para mim, que não quero saber quantos me seguem ou lêem. 
Blogues, sites, páginas pessoais ou profissionais que se dedicam ao gigantesco mundo cor-de-rosa, ele é mesmo enormíssimo, conseguem almejar milhares, dezenas ou centenas milhares de visualizações diárias. Conseguem, até, angariar patrocínios com alguma relevância. 


É caso para pensar que a malta dos copos, onde me incluo, brinca apenas aos opinion makers. Com muita paixão, é certo, mas sem objecto ou objectivo definido sobre que se realiza ou pretende realizar. Uma verdadeira migalha, no universo de utilizadores da rede. Estamos no nível do poucochinho. Como dar a volta a isto?
E já agora, por mera curiosidade, quanto vale o negócio editorial em Portugal, que se dedica ao vinho? É mensurável?  

sexta-feira, fevereiro 23, 2018

Quando Provamos isso?

Assim de repente têm surgido nas redes sociais, principalmente em locais de discussão sobre o vinho, um conjunto de expressões que parecem ter pegado. Podemos dizer que poderão tornar-se numa moda ou numa nova abordagem ao tema. Há que inovar. 
Não são raras as vezes que vejo tiradas do tipo quando provamos isso? ou nunca provei isso? ou ainda quando posso provar isso? ou não conheço isso! Às vezes, também reparo em a ver se combinamos uma prova! ou não te esqueças de levar isso ou aquilo que te disse! Também reparo em liguei-te!. Nada de estranho, se as trocas de bocas acontecessem entre malta anónima, que desafia o amigo ou o conhecido para uma patuscada e para beber uns copos.


Na realidade, estas expressões aparecem com alguma frequência para chamar a atenção de um produtor ou enólogo ou director comercial de um produtor, quando estes metem uma imagem de um vinho, de preferência novidade, ou quando ganham um determinado prémio. Também surgem as ditas manifestações, quando o desinteressado e apaixonado consumidor mete uma foto de um vinho.
Para se ter a certeza que reparam no que se está a dizer, os mesmos produtores, enólogos ou directores comerciais são notificados publicamente, como medida preventiva. Evita-se que o pedido ou desafio caia em saco-roto. É também uma forma de mostrar ao mundo que se tem bastas e profícuas relações, com quem faz o vinho nosso de cada dia. Registo, muitas vezes, que as respostas são, apesar de cordiais, pouco efusivas, por parte de tais responsáveis. 

segunda-feira, fevereiro 19, 2018

Os Ofícios do Hugo

Gosto da postura do Hugo Silva, da sua forma ponderada, equilibrada, como olha para o mundo do vinho. Percebo que é um estudioso, que não tem dogmas, não estabelece barreiras e não diaboliza nenhuma das múltiplas formas de fazer vinho. Aprecio muito a forma discreta como se apresenta ao mundo. Não faz estardalhaço, mas é preciso no que diz. Reparo que anda (ainda) em busca de um ideal de vinho. É, efectivamente, uma personagem que aprecio bastante (foram poucas as vezes que nos cruzámos), que sigo com a atenção que me é possível. É um puto, perdoem-me a expressão, que se vai fazer.


É fácil dizermos que gostamos de um vinho, quando ele nos é oferecido por alguém que, ainda por cima, estimamos e gostamos. Bem mais difícil é dizer o contrário. Portanto, uma lapalissada


Gostei do vinho. Gostei do carácter franco do vinho. Gostei dos aromas, que deambulavam por entre a fruta madura, mas fresca e viçosa, e sensações terrosas. Gostei, permitam-me o exagero organoléptico, do perfume a mato, a erva rasteira, ou coisa que o valha, que parecia ter. Gostei do seu sabor fresco, limpo e suculento. Gostei muito da forma como se deixava e deixou beber. Profundamente escorreito. Gostei, porque me soube bem, porque tive prazer,  porque curti, porque sim.

sexta-feira, fevereiro 16, 2018

Sobre os Prémios no Sector dos Vinhos

Como todos sabemos, estamos na época alta dos prémios do sector do vinho. A indústria do vinho está, portanto, ao rubro. Existem prémios para as mais diversas categorias, sendo que algumas parecem-me um pouco inusitadas. O espectro é, portanto, muito alargado. 
Este ano, tal como no ano passado, não vou comentar aqui no blogue a justeza dos prémios, que foram já atribuídos ou que irão ser atribuídos. Todos são justos. Não quero e, na verdade, não me apetece. Talvez recupere, um dia, a vontade. Sempre fui um gajo de vontades. Ou tenho ou não tenho.


No entanto, endereço, desde já, as minhas felicitações a todos os que já foram agraciados e que irão ser agraciados. Os que não foram agraciados, ainda, e que desejam muito, um dia, ser premiados, continuem a lutar com afinco. Talvez um dia possam ter, também, uma estatueta ou diploma nas mãos. Reconheço a importância que os prémios tem para a indústria do vinho, para quem vive do vinho, nas mais diversas vertentes: produção, distribuição, promoção. Sem vós, nós não tínhamos vinho para beber e comentar, dizendo bem ou mal.
Sobre os prémios W, atribuídos por Aníbal Coutinho, apraz dizer que mantenho o que já disse e como tal, devolvo educadamente a menção que foi me atribuída. Não ando atrás de prémios, sejam eles quais forem. Vivo o mundo do vinho à minha maneira, como me apetece. Já fico (muito) contente por vocês lerem, seguirem, comentarem ou não o que vou dizendo por aqui. Concordando ou não. Gostando ou não.

quinta-feira, fevereiro 15, 2018

Porra!

Anda um tipo completamente despreocupado, à procura de qualquer coisa para a vianda, quando olha, por acaso, para uma prateleira. Para uma daquelas prateleiras que estão lá em baixo, ao nível dos pés. Salta à vista uma única garrafa, enfiada num emaranhado de outras que não tinham qualquer interesse. 


Estava já um gajo sentado à mesa a comer a dita vianda, quando os olhos brilharam com a porra do vinho, que tinha ali à frente. Caramba, estava em perfeitas condições, num estado de equilíbrio assinalável. Cheirava bem, sabia muito melhor. Com uma profundidade e equilíbrio que arrebatava. Fruta sadia e grande frescura. Tanto por tão pouco.


Bolas, já me tinha esquecido do potencial deste vinho branco (a colheita de 2016, salvo erro, não me parece tão bem conseguida), da sua capacidade para aguentar e enriquecer com o tempo. Sempre olhei com pena ou perplexidade para o facto de nunca ter sido criado um vinho branco que amandasse esta casa para outro nível. Ah, esteve melhor, depois, à hora do jantar. Onde conseguiu catapultar-se para outro patamar. Exagero? É provável ou não.

sexta-feira, fevereiro 09, 2018

Vinha Paz: O brilhantismo de um Vinho

É o que eu digo. A loucura pelos novos rótulos, faz com que releguemos para lugares subalternos, nomes que eram, no passado, incontornáveis. Decididamente é uma autêntica parvoíce, um gajo andar sempre a correr em busca da derradeira novidade. 


A última garrafa de um lote que fui construído ao longo dos anos. E naquele acto meramente instintivo, saquei do vasilhame e libertei o vinho da clausura, em que se encontrava. Os meus olhos brilharam. Profundamente fresco e seco, empachado daquele carácter do Dão, onde a caruma, o mato, a pedra e tudo aquilo, para quem conhece bem a região, tem.


Naquele jogo de palavras que gosto de ter, nem que seja só para mim, diria que através de um simples copo, senti e vagueei por entre uma porrada de sensações muito íntimas e pessoais. Um vinho de grande dimensão, maduro, com uma estrutura de aço, mas ao mesmo tempo brilhantemente elegante. Estava para durar anos. Um exemplo de consistência, a um preço baixo para tanta qualidade.

terça-feira, fevereiro 06, 2018

Aproveitem!

Premium, Signature, Vinhas Velhas e Superior. Estas são as palavras mais usadas na feira de vinhos da maior garrafeira do país: A do Continente. 


São vinhos de autor, únicos, personalizados, cuidadosamente escolhidos para o consumidor. Ainda por cima, vendidos a preços arrebatadores, quase ao preço da uva mijona. Aproveitem a oportunidade única e encham o carrinho das vossas compras com vinhos de topo. São vinhos, partindo dos epítetos que têm, produzidos a partir das melhores uvas de cada produtor. Tudo pensado ao pormenor.

segunda-feira, fevereiro 05, 2018

Arroz de Marisco: Um paradigma

Estou prestes a desistir de comer arroz de marisco. Com a idade, a falta de paciência e a pouca tolerância para chupar cascas e carapaças, que se metem no meio dos dentes, dei comigo a olhar de lado para o arroz de marisco. Já nem sequer me refiro aos que levam creme de marisco como base ou que são feitos a partir de uma calda de tomate pré-preparada, em que é acrescentado arroz branco, já cozido. E nem falo na insistência em usar arroz agulha.
Não acho piada ao arroz de marisco que vem cheio de patas de sapateira, aquelas mais finas, que um gajo tem de se sujar todo para as chupar e que nada lá encontra. Assusta-me o martelo. Imagino, logo, tudo a espirrar para todo o lado ou um dedo esmagado. Um esforço titânico para retirar o pouco conteúdo. Uma bodegada. Não curto nada ver uma quantidade abismal de conchas de bivalves sem nada, do meio do tacho. Vazias. E, também, já nem falo do marisco de viveiro, camarão ou gamba, que metem lá para dentro.

A foto é meramente ilustrativa. Retirei-a do google
Irrita-me, ainda mais, é ir para afamadas zonas ribeirinhas e gramar com arroz de marisco digno de um daqueles restaurantes de zona comercial, ao estilo Disney ou, por outro lado, com pretenciosos arrozes de marisco, em que o marisco é quase holográfico. 
Ainda fico mais lixado, quando me propõe um arroz de marisco sem cascas, estupidamente mais caro, com preços demenciais, do que aquele que possui uma porrada de detritos calcários. Por favor, arranjem-me um bom arroz de marisco.

sexta-feira, fevereiro 02, 2018

Sem Formalidades

Gosto de gajos que não fazem concessões, aprecio malta que se borrifa para grupos ou pandilhas, mesmo sabendo que vão ser, mais tarde ou mais cedo, colocados de lado, desviados ou marcados como leprosos. Quem o faz sabe, de antemão, que será ostracizado para sempre. Sair do conforto, da protecção do grupo, é um acto arrojado e nem todos têm a capacidade e estrutura mental para o fazer. Estar no grupo ou ter um grupo garante, apesar de tudo, comida, bebida, dormida e conforto. Quem não quer?

Um gajo anda sempre a vasculhar por novidades e esta sede, por tudo que tem rótulo novo, cega-nos. A maior parte das vezes, esta loucura não faz qualquer sentido. Há muito tempo que não bebia um vinho de Luís Pato. Também cego. Um Vinha Formal masculino, profundamente sério. Com um nível de austeridade e estrutura que faz afastar os mais sensíveis. Com uma dimensão que merece registar. Apresenta um estilo pouco consensual, férreo, com uma enorme capacidade para evoluir. Foi um crime abrir esta garrafa, mas ainda assim, permitam-me que vos diga: É um grande vinho!

Admiro ainda mais os que não querendo saber do que se passa à volta, conseguem opinar sem se preocuparem com as consequências das suas palavras e ainda assim serem, vejam lá, tratados com veneração. Caramba, é uma arte que não está ao alcance de todos. E eu aprecio.