sexta-feira, abril 20, 2018

É muito curto! É muito poucochinho!

Às vezes, meto-me a pensar sobre a carrada de vinhos feitos com as nossas ditas castas autóctones, que são completamente incaracterísticos, sem alma, normalizados, sem qualquer respeito pelas identidades regionais. Acabo, às vezes, por ficar mais apreensivo e chateado com isto, do que aqueles que vão sacar castas lá fora, para fazer os seus vinhos. Apesar de incompreensível, assumem declaradamente o que querem fazer.


Atrevo-me a dizer que pior do que fazer imitações assumidas, usando castas estrangeiras, é pegar nas castas nacionais e criar vinhos bastardos, sem qualquer carácter regional e identidade. Acabam por ser, também, vinhos de imitação, que podem ser de qualquer do mundo, menos do Douro ou do Dão, da Bairrada ou dos Verdes, do Alentejo ou de Setúbal, do Tejo ou Lisboa, Beiras ou Algarve. De todos os lugares, menos de Portugal. Por isso, dizer que temos uma porrada de castas não basta. É muito curto. É muito poucochinho. E era só isto, pois é sexta-feira. 

sexta-feira, abril 13, 2018

Peixe em Lisboa: Até um dia!

Tenho ido, quando posso, ao Peixe em Lisboa. Era mais uma oportunidade para comer algumas coisas assim mais para o diferente. Gostava muito, curtia mesmo, quando era no Pátio da Galé. No Pavilhão Carlos Lopes não tenho gostado tanto. Senti, na pele, enormes mudanças no ambiente. Não consigo concretizar melhor. É algo se situa no domínio do íntimo. Posso, por isso, estar a ser injusto.
Voltei lá. Senti que não pertencia àquele lugar. Senti-me deslocado. O evento é demasiado elegante e social para mim. Não consegui desfrutar da ocasião, como no passado. Senti-me mal vestido, mal amanhado. Com uma indumentária pouco adequada ao lugar. 
Está colocado, pareceu-me, num patamar económico-social que não é o meu. Não é uma crítica ao evento. Não quero sequer fazer qualquer dissertação sobre assuntos que não percebo puto. Não vale a pena, por isso, virem para cima de mim. Sou daqueles gajos que apenas quer desfrutar, sentir-se confortável. Mas senti-me perdido.


Não quero falar do que comi, porque se está no universo das opções. As minhas. Podia ter escolhido outra coisa. Mas foi o que foi. Mas caramba, uma coisa são doses pequenas, de degustação, outra coisa são os hologramas. E pareceu-me ver muitos. 
Relativamente ao vinho, epá, fiquei com a ideia que para se beber algo mais decente e interessante é preciso subir muito na escala do preço. Acabei por beber um branco leve da Estremadura (dois euros) que foi mais barato que uma garrafa de água. Por isso, quando as relações acabam, costuma-se dizer: foi bom enquanto durou. Até um dia!

quinta-feira, abril 12, 2018

O Queijo e o Vinho

Nos tempos em que achava ser fino beber vinho, principalmente o tinto, a prática era emparelhar o queijo com o tinto. E para não fugir à moda, ao que se fazia na altura, também comia queijo e bebia vinho tinto. Digamos que era mais uma estratégia para me imiscuir no meio, ser aceite e fingir que percebia do assunto. Se calhar, até elogiei a combinação ou publiquei fotos, naquele lugar onde vamos, todos, bisbilhotar. Digamos que não foram momentos sentidos.

Olhem, experimentem o vinho. Não conhecia. Gostei. Estava bem balanceado, era fresco e untuoso. E acima de tudo, deu prazer, que é o que (me) importa. Voltaria a comprar.
Assumo, agora, que nunca gostei (muito) de beber vinho tinto e comer queijo. Mas fazia-o. Seja qual for o queijo ou o vinho, não gostava. A boca, a minha, ficava toda meia lixada. Dir-me-ão que há certos vinhos tintos que combinam com certos queijos. É possível, mas nunca fiquei convencido, nunca consegui obter verdadeira satisfação. Nunca.


Decididamente, para mim, a aliança perfeita é com vinho branco, com ou sem estágio em madeira ou com mais ou menos idade. Desta forma, sinto paz na boca, o corpo reage de forma mais pacífica. Tudo parece encaixar muito melhor. A frescura do vinho abraça a gordura do queijo e do enchido, já agora, de uma forma quase irrepreensível. Um espumante, pela experiência que vou tendo, também não fica nada mal. Mas por favor, nunca mais me dêem queijo com vinho tinto. É preferível comê-lo uma cerveja, tipo mini.

terça-feira, abril 10, 2018

Nota de Prova Cega

Proponho-vos um simples exercício. Geralmente quando vemos notas de prova, surgem (quase sempre) acompanhadas pela fotografia do rótulo e é este, creio eu, que nos influencia verdadeiramente. Concordando ou discordando, é o rótulo do vinho que acaba por ser a variável com maior relevância. A par da classificação. Muitas vezes, nem damos a devida atenção ao que se escreve, ao que se diz sobre o vinho em si. Fixamos, depois, se no final levou dezoito ou dezanove. E pimba, é este ou aquele que vamos comprar. Bom, na verdade e nos tempos que correm, um dezoito já não chega.
E se as notas de prova fossem despedidas de rótulos? Teríamos a mesma reacção? Provavelmente não. Os inputs seriam muito menores.


Mas voltemos à proposta que chamo de Nota de Prova Cega. Pedia-vos que lessem as seguintes passagens. São notas de prova que retirei, sem qualquer alteração, de uma revista da especialidade. Estão despidas de rótulos, dos nomes dos vinhos e das respectivas classificações:

1) Nariz algo fechado, notas de tosta e fruta madura, cheio, poderoso na substância que tem ainda guardada. Encorpado na boca, mas sem pesar, ambiente mineral e com um estilo polido e profundo. Conjunto muito sério que vai crescer bastante com o tempo. In VGE - Janeiro de 2018

2) Intenso na cor, fruta madura de grande qualidade, notas de tosta, todo ele cheio, amanteigado. Muito bem na boca, com volume, grande estrutura e de final muito prolongado. Bastante sofisticado. In VGE - Dezembro de 2017

3) Muita azeitona e eucalipto na primeira impressão, balsâmico e químico, concentrado no aroma. Denso e bastante cheio na boca, compacto, muito sólido, a mostrar grande estrutura e classe mas a precisar de muito tempo em garrafa para relevar. Um vinho de futuro. In VGE - Março de 2018

As perguntas, essas, são do mais simples que pode haver: Comprariam os vinhos? Estão alinhados com as vossas tendências? Despertam curiosidade? De que região será cada um deles? São brancos ou tintos? Qual seria a classificação que dariam aos vinhos (0 a 20)?

terça-feira, abril 03, 2018

Tenho pena...

Tenho muita pena que não seja fácil. É com pena que não vejo estes vinhos na capital do império. É com pesar que a malta anónima, como nós, não consiga beber estes vinhos, com a facilidade que seria desejada.
São vinhos que não prendem as atenções dos mais famosos, sejam eles quais forem. Mas não dão fama e nem glória. Os padrinhos dos eventos e das amostras encaminham os gajos que têm opinião, mesmo que seja mal verbalizada, para outras coisas. A força do marketing, das empresas de comunicação e publicidade empurram a malta, e a malta gosta, para vinhos e produtores de passarelle (que também os bebo).


Estes vinhos, existirão outros tantos assim, têm uma enorme dignidade. Estão muito bem feitos, dão muito prazer, têm personalidade e são diferenciados. São muito escorreitos, frescos e secos, com um registo muito particular. Têm bem impresso o cunho do Dão. E para tesos, como nós, são vendidos a muito bom preço (este branco custa menos de cinco euros, nas áreas comerciais da região).


Como disse uma vez, se fossem vinhos de uma COOP mais badalada, mais paparicada, mais burguesa, mais bonitinha, tivesse gente mais urbana à sua frente, eventualmente a realidade seria bem diferente. É que mais vale cair em graça do que ser engraçado.

segunda-feira, abril 02, 2018

Não é para ler...

Por vezes, gostaria que fossem mais, sou tratado como um príncipe. A espaços, tenho a fortuna de me aconchegarem a alma e o corpo com verdadeira comida. Com aquela comida que nos faz relembrar de onde viemos, quem somos e do que somos feitos. São momentos íntimos, de profunda introspecção. Não têm anda a ver com aquelas cenas bem decoradas, vagas de sentimentos, cheias de nada, onde os gajos mais bonitos, afilhados de uns poucos, se entretém a registar e a mostrar ao povo, que os vê de boca aberta. Nada a ver.


Sentar numa prosaica mesa, onde no meio está um tacho atascado com comida com uma feiura que nos apaixona, mais uns bocados de pão num cesto de vime, forrado por uma renda, e uma garrafa de vinho, leva-nos para lugares e estados que existiram, em tempos. É a glorificação da inocência. 


A um ritmo lento, vamos enchendo o corpo, vamos sarando as feridas que teimam a abrir, de tempos a tempos. Fica-se reconfortado. Espreita-se, volta na volta, lá para fora. Se chover e fizer frio, melhor ainda. Ficamos seguros que estamos no nosso lugar.


Naquele lugar que nos protege e afasta daquela sujidade que nos conspurca, que nos agonia. Levantamos-nos da mesa, apenas, quando o tal tacho estiver rapado e a tal garrafa estiver sem pingo. E com pança cheia. São, simplesmente, coisas para se viverem e não para ler. Não dão glória e nem fama.