quarta-feira, novembro 22, 2017

Aos Gajos Loucos ...

Ainda bem que existem gajos loucos, que fazem vinhos loucos, que se borrifam para o que a média quer e o que os conhecedores, especialistas dizem e profetizam lá do alto do altar. Ainda bem que não ligam puto


É que do outro lado, também existe malta que não liga puto para o que a média quer e para o que os guias espirituais ditam sobre o assunto. Que não quer saber dos bem vestidos, desta terra.


Ainda bem que existem loucos, neste mundo. Tornam-no muito mais divertido, bem mais irrequieto, muito mais louco. Sorte nossa.

sábado, novembro 18, 2017

Que se lixe! Merece um 20...

Todos conhecem, por certo, o provérbio popular mais vale cair em graça do que ser engraçado. A sorte, a empatia, a arbitrariedade, o saber comer e calar, a cunha, aquele empurrão no momento certo são factores que podem ditar o destino de alguém. São, ao fim ao cabo, coisas da vida. É preciso saber e ter arte para cair no goto. Caindo no goto, torna-se tudo muito mais fácil. Abre-se um número infindável de portas, portões e portinhas. Infelizmente, este nível de fortuna não atinge a maioria. E muitos recebem louros em demasia. Nasceram de cu virado para a lua.


Este produtor, vou dizê-lo sem qualquer pudor, é dos poucos tesouros que o Dão ainda conserva. Os seus vinhos, não sei se estão bem feitos, se tem defeitos ou não, encerram dentro deles uma alma enorme. Possuem aquele carácter bem típico dos vinhos do Dão, de outros tempos. Tempos que, perdoem-me, muitos já esqueceram, que não fazem ideia do que eram, mas que quase todos tendem a querer destruir.
Este Encruzado é simplesmente um estrondo de vinho. Não, não me enganei no que disse. Não é, certamente, um vinho para todos. É, antes de mais, um vinho provocatório, desafiante. E não sei se foi propositado ou resultado do acaso.


Numa época em que quase tudo recebe grandes louvores, é acariciado e paparicado por meio mundo, em que um 17, 18 ou 19 se tornaram o pão nosso de cada dia, este vinho merece um 20. Um 20 pela sua rusticidade apaixonante. Um 20 pela forma como consegue transportar dentro de si, toda a alma da pedra e da frescura acutilante da Beira Alta. Um 20 pela quantidade de arestas que tem. Não, não é um vinho bonito, mas antes, e felizmente, rude. Acima de tudo, genuíno.
É literalmente um vinho que não serve para a mesa do Rei. É para ser celebrado junto daqueles que estoicamente se lembram de como eram as coisas antigamente. Um autêntico compêndio de memórias.

quarta-feira, novembro 15, 2017

Encontros com o Vinho

No meio da época alta dos eventos de vinho, pelo menos na capital do império, que balanço a fazer após a realização dos mais esperados Encontros com o Vinho (o da Vinho Grandes Escolhas e o da RV - Essência do Vinho)?


Não tenho ouvido, visto ou lido grandes reacções, por parte de quem os visitou e que naturalmente fez comparações. É claro que existem publicações, comentários elogiosos e vitoriosos por parte dos adeptos de cada uma das equipas responsáveis de cada um dos eventos. É normal e compreensível.


Pessoalmente, visitei por breves horas o Grandes Escolhas Vinho & Sabores. A falta de paciência já não me permite provar tudo e mais alguma coisa, só para fazer currículo. Ainda assim, molhei os lábios numas coisas bem interessantes. Gostei do espaço, do seu conforto, desfrutei da ausência de encontrões e empurrões, não presenciei copos partidos, nem bandos à procura de armazenar a maior litragem possível. Gostei da sobriedade do evento. A panóplia de produtores era vasta e diversificada, para todos os gostos e feitios. Pelo que fui reparando, o cardápio proposto pela Vinho Grandes Escolhas pareceu-me foi bem maior do que aquele que foi proposto pela Revista de Vinhos - Essência do Vinho para Encontro com o Vinho e Sabores, que não visitei.

segunda-feira, novembro 13, 2017

Horácio Simões: Moscatel Roxo Superior 2005

O tempo que um Moscatel ou um Porto passa em madeira (tonel ou barrica) é uma variável muito importante na complexificação deste tipo de vinhos. Muitas vezes, até usamos expressões como engarrafamento mais tardio ou mais recente. Não sabendo muito do assunto e nem querendo tocar em questões técnicas, que estão fora do meu alcance, tenho sido confrontado com vinhos Moscatéis da mesma colheita, mas engarrafados em alturas diferentes, com estados de evolução e complexidade bem diferentes. 


Invariavelmente aqueles que estiveram mais tempo de estágio na madeira, sofrendo as agruras da oxidação, são os que apresentam um nível de aromas e sabores muito menos imediatos, bem mais profundos, muito mais interessantes e sérios. 


Este vinho Moscatel Roxo é um destes casos. Tenho seguido a sua evolução, desde que foi lançado, e posso afiançar que agora está num estado que o catapulta para o grupo dos melhores Moscatéis da região de Setúbal. A sua imensa frescura, aliada àquele toque a vinagrinho, bem como uma porrada de impressões a especiaria que parece ter, colocam este vinho num patamar onde poucos Moscatéis de Setúbal, da nova geração, conseguem chegar. À excelência. São, por isso, cerca de 20 euros muito bem empregues. E tenho dito.

quinta-feira, novembro 09, 2017

A Cor dos Brancos

Alerta à navegação! Isto não tem nada a ver com a cor da pele dos humanos. Só para não criar mal estar desnecessários ou interpretações enviesadas. Estamos, portanto, esclarecidos.
A minha dúvida é muito simples. Na verdade, já tinha tocado no assunto uma vez aqui. Têm por hábito reparar na cor dos vinhos brancos que bebem?


Nos últimos tempos, dei comigo, a dar mais atenção à cor que os vinhos brancos possuem. E comecei a ficar, assumo perante vós, um pouco incomodado, tipo pé atrás, com a tonalidade de alguns deles. Possuem cores tão esbatidas, quase a roçar a água. Quase, quase transparentes. Até se fica em dúvida, se é vinho ou outra coisa qualquer. E influenciado ou não, fatalmente os vinhos acabam por saber-me invariavelmente a algo meio desenxabido. A algo, apenas, com álcool. As perguntas são muito simples e directas: Porque que é que isto acontece? Manipulações a mais?

segunda-feira, novembro 06, 2017

Vinha Othon: Uma questão de Tendência

Todos temos inclinações. Preferimos determinada coisa em detrimento de outra. Muitas vezes, sem razão justificável. Na maior parte das vezes, nem sequer uma justificação se consegue dar. É assim, porque é assim. Basta gostar mais e já chega. É suficiente. Para mim, é claro.



Sempre gostei mais do Othon do que do Reserva da Vinha Paz. Sempre me pareceu mais elegante, mais fino, mais clássico. Muito mais sedoso. Gosto da sua sobriedade, da sua falta de exuberância. Da sua aparente falta de modernidade. Não sei se me estão a entender. 

quarta-feira, novembro 01, 2017

Os 19

Reparei no outro dia que quatro vinhos tintos da região do Douro (Poeira 44 Barricas 2014, Quinta da Leda 2015, Quinta Nova Nossa Senhora do Carmo Grande Reserva 2015 e Quinta do Monte Xisto 2015) obtiveram nota 19 numa revista da especialidade. Sem contar com os 18 e 18,5. Já tinha reparado, aqui e além, que outros vinhos tinham, também, sido agraciados com estas avaliações. Não quero, nem pretendo, não desejo, não é minha intenção questionar o real valor dos vinhos e muito menos a seriedade de quem atribuiu as classificações. Fica aqui o aviso público, só para não pensarem, como é hábito, que estarei a desdenhar. Infelizmente no país que vivemos, quase que precisamos pedir desculpas só para levantar o dedo e fazer uma mera pergunta (inha). É o medo da segregação.


Não deixei de reter-me, por momentos, nas páginas da revista Vinhos Grandes Escolhas, num estado que não consegui definir. Devo partilhar com vocês que gostava, um dia, provar estes e outros vinhos do género para compreender a dimensão das classificações deste calibre, num exercício comparativo. Isoladamente, torna-se mais complicado compreender, entender. Acho eu.
Sei que durante anos, era muito mais fácil aceitar que um vinho generoso recebesse 19 valores, do que um vinho tranquilo. Por isso, será que estaremos a entrar numa nova era, em que as barreiras que limitavam a atribuição destes valores estão a cair? Será que já não existe tanto medo, receio ou pudor? E que comparação podemos estabelecer, a este nível, entre os nossos vinhos (cada vez mais bem classificados internamente) e os outros lá de fora? Ou tudo isto que está acontecer cá dentro, não é mais do que uma projecção do que está suceder, também lá fora?

segunda-feira, outubro 30, 2017

Epá! Quinta do Cardo Vinha do Castelo

Vou armar-me em conhecedor profundo. Nunca consegui dizer mundos e fundos de vinhos estreme de Tinta Roriz (salvo raríssimas excepções). Nunca lhes achei grande graça. Nunca me fizeram soltar qualquer ai de admiração ou reconhecimento. Nunca corri para comprar, acho eu, qualquer vinho que só tivesse Tinta Roriz. Sempre os achei pouco mais que porreiros (tirando um ou outro).


Epá, neste caso, a coisa é bem diferente, meus caros seguidores, amigos e desamigos. Aqui temos um vinho com uma profundidade que me deixou de queixo caído. Um vinho que fez arregalar os olhos, logo no primeiro trago. Repleto de cheiros cativantes, insinuantes e muito complexos. Um autêntico bouquet de sensações campestres. Na boca, a elegância, finesse e frescura primam sobre tudo.


Basicamente, meus caros, estive perante um vinho que adorei e pelo qual me apaixonei. E sem qualquer controle nas palavras, arrisco a dizer que estive perante um grande vinho. Independentemente se foi feito só com Tinta Roriz ou não.  Só não sei se vale 17, 18, 19 ou ainda 20 valores, mas isto fica para quem sabe do assunto à séria.

domingo, outubro 29, 2017

Portugal Boutique Winery: GOBLET

Conhecia o projecto apenas pelo que ia vendo nas redes sociais. Nunca tinha provado qualquer vinho criado pelos miúdos Nuno Aguiar e António Olazabal. Pelo que fui vendo e acompanhado, aqui e ali, reparava na enorme paixão que pareciam imprimir nas suas ideias. Apesar da juventude e da loucura que mostravam, tudo me pareceu coerente, bem pensado e programado. Acima de tudo, os miúdos estavam a dar vida a um sonho.


Fiquei profundamente agradado e entusiasmado com o que provei. Os brancos, genericamente, apaixonaram-me. Limpos, crocantes e tensos. Cheios de nervo e com muita frescura. Gostei da sua juventude, da sua inquietude. Digamos que fiquei convencido. Ganharam um lugar de destaque na minha restrita lista de aquisições.


O palhete, o vinho que ilustra a coisa de hoje, é daqueles vinhos que se bebem assim num clique. Do tipo zás e foi todo. Leve, directo, sádio e nada pesado ou cansativo. Com uma secura bem colocada e muito fina (nem sei se isto se pode dizer), que limpa a boca, que faz salivar, que nos faz pedir por mais um copo. Um vinho que se comporta muito bem à mesa, ao redor de petiscos ou simplesmente no apoio a uma simples converseta. Uma só garrafa, por isso, pode tornar-se insuficiente. Fiquei adepto e rendido. E com isto tudo, aumentei o número de amigalhaços.

quinta-feira, outubro 26, 2017

Sem novidades!

Isto de um tipo ter presumivelmente um blogue de vinhos e não conseguir competir com os seus pares, por falta de novidades ou referências a vinhos mais ou menos icónicos ou mais ou menos desejados ou ainda mais ou menos famosos, torna a minha tarefa bastante complicada. Estou ao nível, com todo o respeito, de uma equipa de futebol lá do fundo da tabela.


É tramado. Assumo. Bem tento vasculhar por alguma coisa que, vá lá, valha a pena partilhar, mas caramba não existe nada. Para além dos vinhos de amigalhaços, apenas pontificam imagens sem qualquer interesse público. Estou por isso, sem novidades para vos dar. 

terça-feira, outubro 24, 2017

Anselmo Mendes: 3 Rios

De relance olhei para o lado. Ia de mão dada com uma das minhas filhas. A mais nova. Reparei com alguma admiração para a presença deste vinho. Estava numa das prateleiras daquele espaço onde se oferece vinho. Devo dizer que fiquei meio perplexo. 



Abriu-se no dia, logo à noite, com aquela companhia que não existe. Encheu-me a alma pela sua ligeireza, pelo seu perfume, pelo seu equilíbrio. Cristalino e limpo. Foi acima de tudo um feliz reencontro com um vinho que não bebia há uma porrada de anos. 

domingo, outubro 22, 2017

Roçando a perfeição: Quinta da Vegia

Simplesmente mais um momento a sós. Mais um daqueles momentos em que desfrutamos prazeres de forma solitária, em que se pensa em tudo e em nada. Estamos por ali. Vagueia-se.
Pouco importará, para vocês, como conheci o produtor da Quinta da Vegia. Acredito que não terá qualquer relevância se foi assim ou assado. Se foi neste ou naquele lugar. Sei que foi há uma porrada de anos. Nos tempos em que se fazia um dos melhores eventos de vinhos da capital do Império: Dão & Douro. Evento que se eclipsou.


A garrafa estava ali a um canto, guardada para uma qualquer ocasião. Para um qualquer encontro com aqueles gajos que gostam de beber à séria. Que dizem, sem apelo nem agravo o que lhes vai na alma. Sem filtros. Uns párias, uns ordinários que não têm respeito pela ordem. Olhados de lado. Num gesto instintivo, peguei nela e abri-a. Sem mais delongas. 


Não sei se existem vinhos perfeitos. Pouco importa. Sei que existem vinhos que nos enchem a alma na ocasião certa e que por isso se tornam (quase) perfeitos. Completam a refeição. Acompanham a conversa, mesmo que ela seja um mero monólogo. E pouco importa se eles, os vinhos, cheiram ou sabem a isto ou àquilo. Para o caso, só confirmei porque gosto de vinhos do Dão. Porque, quando bem feitos, são o pináculo da frescura, da elegância, da finura, capazes de meter num simples copo todos aqueles cheiros de uma floresta que foi assassinada.