segunda-feira, março 02, 2015

Muros

Vamos, (in)conscientemente, colocando uma pedra, um bloco em cima de outro. Vamos lentamente subindo a parede, com maior ou menor velocidade, consoante o estado da alma, que julgamos ter. 
Por múltiplas razões, entretemo-nos a reforçar a barreira, elevando-a, de tal forma que o horizonte vai ficando vedado e sumido. 


Coloca-se mais um bloco, cimenta-se por cima dos outros, com intuito, apenas, de criarmos um mundo nosso, protegido das maleitas exteriores, longe de tudo. Passamos a ouvir, somente, sons difusos e incaracterísticos. Que estão do lado de lá. O céu, no alto, fica confinado, apenas, ao perímetro.


Tal criança, num canto do quarto, passamos a brincar em silêncio, vivendo realidades ou irrealidades, onde desempenhamos todos os papéis. Longe do que se passa do outro lado do muro. Protegido...

quinta-feira, fevereiro 26, 2015

Remake: O Produtor vs O Enólogo

Ao realizar uma leitura célere pelos escaparates, durante a manhã, detive-me numa passagem que merece séria reflexão, não por mim, mas por quem faz vinho e vive dele: "...um dia perguntei a José Bento dos Santos qual a marca que os vinhos de uma quinta deveriam ter, se a do enólogo ou a do produtor. Sabe a resposta dele? A do produtor. Eu concordo com ele! Infelizmente, os produtores não assumem as responsabilidades." 
E sem alongar-me mais sobre o assunto, pois corre-se o risco de repetir ideias já roçadas, a convicção pessoal é que a maior parte dos produtores parece não fazer ideia do que faz, o que pretende, se quer assim ou de outra maneira. Já agora, parece-me que toquei neste tema, algures no passado: "Há, não só em PT, qualquer coisa de clube de futebol na gestão de uma empresa viniculturalista (a palavra existe?). Contrata-se, ou tenta-se, o melhor treinador, o melhor enólogo, com o objectivo de ser, aceleradamente campeão. O problema, tal como no futebol, é que o produtor e o presidente parecem saber de tudo, menos do negócio que têm nas mãos. A coisa vai correndo, ou não, enquanto há dinheiro. A porca torce o rabo, quando ele começa a escassear. E a culpa, tal como no futebol, é de quem? É que nem sempre o Mourinho ganha."  


Raros são, portanto, os produtores que trabalham efectivamente a sua marca, que lhe dão um cunho pessoal, que transmitem aos seus vinhos um carácter próprio que os distingue dos outros. Na maior parte, das vezes, dizemos, ao invés, que aquele vinho tem o cunho de determinado enólogo ou assessoria enológica. São vinhos que, em privado ou não, baptizamos, justa ou injustamente, de vinhos de régua e esquadro. Impessoais e comuns. Raros são os produtores que são produtores.
E neste despachar de obrigações para os enólogos e suas equipas, os produtores desresponsabilizam-se do seu papel de timoneiros, de estrategas, de decisores. E os seus vinhos saem iguais aos do vizinho de que, por vezes, falam com desdém. É tramado.

quarta-feira, fevereiro 25, 2015

720 Nuits ou 720 noites?

Alguns detractores dirão que é uma encomenda, um favor, que é um puro acto de lóbi, gratuito e sem sentido. Considerem o que quiserem considerar. Que seja, então, o que for ou o que não for.
Apesar de raramente, ou nunca, centrar-me no vinho per si, devo partilhar publicamente, aqui e para memória futura, que tinha alguma expectativa em relação a este vinho, curiosidade com o que estava ou estaria a ser feito.
Trata-se de um rosé singular, que apesar de estar ainda meio imberbe, arrisco a dizer que temos um vinho com ambição, com intuito de se posicionar num patamar mais elevado. Obter outro estatuto. Transformação que, verdade seja dita, está acontecer noutros rosés.


Fiquei com a sensação, muito pessoal, de que foi imprimido esforço e dedicação para que pudéssemos ter acesso a algo, perdoem-me a expressão estafada, diferente. Terão sido 720 noites? Vinho para beber com calma, com atenção e disponibilidade. Não é certamente para a esplanada, para acompanhar actos fúteis. Com todo este envolvimento, é pena a forma da garrafa. Poderá parecer ser detalhe de somenos importância, mas merece ou merecia melhor vasilhame. Assim, surge-nos incompleto.

Apêndice: Será escusado dizer que sou amigo do enólogo e que ambos fazemos parte de uma pandilha de indivíduos que se diverte a beber vinho e a comer de forma despreocupada.

segunda-feira, fevereiro 23, 2015

As Maias

Uma Flor que traz à lembrança momentos, locais e pessoas de enorme relevância pessoal. Uma Flor simples, sem grande beleza aparente, meio rude, mas que simboliza o que tem de simbolizar. 


As Maias são evocadas, ou eram, numa efeméride com origens  numa antiga festividade celta que celebrava o início do Verão: Beltane. Maias é Maio, o prelúdio do tempo quente, o fim da dureza do Inverno. Flor de um arbusto que servia e ainda serve para algumas coisas.  


Das visões mais intimistas e reconfortantes, e que guardo numa gaveta, é a de uma determinada encosta bem íngreme adornada pelo amarelo, batida pelo vento de suão. Ondulavam as tais flores num suave bailado, de lá para cá e de cá para lá. Numa coreografia hipnotizante, em que o amarelo ia mudando de tons. A minha mãe, personagem que esforço por manter viva, tinha por hábito assistir com uma paciência indescritível a tal espectáculo. Eu, na altura, olhava para aquilo tudo com algum fastio. Um fastio normal de uma criança.

sexta-feira, fevereiro 20, 2015

1975: O Ano do PREC

1975 foi um ano bastante sui generis. Em 1975 decorria, entre tanta coisa estranha e confusa, despropositada, resultado de um estado de não se saber muito bem o que fazer, o tal processo revolucionário em curso, vulgarizado com a sigla PREC. Durante e ao coberto do dito processo revolucionário meio cubano, meio albanês, meio ceausesquiano, meio português, aconteceram diversas peripécias que recordo, apesar dos quarenta anos de distância, ainda com alguma clareza. 


Lembro que pertencer a uma família do norte, na altura, não era coisa que se pudesse dizer com alguma liberdade. Principalmente se se vivesse nos arrabaldes da margem sul. O inverso aconteceria, digo eu, mais a norte. As coisas estavam e andavam muito extremadas. Não se podia ser neutro, indiferente. Ou se era contra ou favor. Ou se estava com ou não se estava com. Não havia meio termo. 


Já terminado o famigerado processo revolucionário, que para muita gente (que conheci) foi rebaptizado de recreio, recordo que e já na escola primária, algures em 76/77, ainda pertencia a uma minoria na sala. E perante a pergunta, colocada pela Dona Fernanda: "de onde são?", nós lá íamos respondendo inocentemente, sendo que o sobrolho, do outro lado, ficava mais ou menos carregado, consoante o que se ia ouvindo. Terá sido a primeira vez que fui escrutinado.

quinta-feira, fevereiro 19, 2015

Sem Título

Há fotografias que são, por natureza própria, um post. Ao olhar para elas, entendemos, percebemos o que dizem, qual a mensagem que transportam. As palavras, nestes casos, acabam por tornarem-se vazias, dispensáveis. 


Olho para a foto, tirada à socapa, sem cuidado algum, e relembro a pureza do momento, da espontaneidade dos actos. O descomprometimento. É isto que conta.

quinta-feira, fevereiro 12, 2015

Branco com todos e com tudo

O branco foi ou é, ainda, o irmão pobre do tinto. O Branco foi ou é, não sei bem, produto com menos status, sub. O Branco foi ou é, parece-me, algo que não tem a mesma importância que o tinto. Verdade seja dita, o Branco era ou é menosprezado por quem o fazia ou por quem o bebia. Diria que foi ou é relegado para planos subalternos por quem se achava mais conhecedor ou experimentado nas artes da maridagem ou que O vinho era ou é tinto. O Branco tinha que ser, também, baratinho

Um branco sénior. Um branco que dispensava, no momento, os outros vinhos.
O Branco foi, durante largos períodos, um líquido para beber (quase) cristalizado em gelo. O Branco era um acelerador de euforia para jovens menos endinheirados. O Casal Garcia, o Gatão, o Lancers eram fiéis parceiros.
Mesmo nos períodos menos áureos do Branco, confesso que sempre gostei mais dele do que do tinto. Declaro que fui obrigado a beber tinto, porque a comunidade assim pressionava. Eram as regras. 

Um vinho que revelou força, complexidade, profundidade nos aromas e nos sabores. Um vinho para beber e desfrutar. Um Vinho.
Uso o Branco com quase tudo, se não com tudo. Bebo branco com carne branca, escura, rosada, grelhada, estufada ou cozida. Com peixe gordo, magro, assado, frito ou cozido. É Branco com todos e com tudo. E por diversas vezes, se não todas, a garrafa esvazia num ápice.

segunda-feira, fevereiro 09, 2015

Esporão

Enquanto bebia mais que um copo, recordava o que Hugo, no outro dia, dizia sobre a comunicação online do Esporão. Eu, para completar, diria que o Esporão é, em muitas áreas, um bom caso de estudo (par de outros): enoturismo, vinhos, presença no mercado, rótulos, um sei lá de áreas diferentes. Um trabalho, sob um olhar pessoal e muito despreocupado, bem feito. A dimensão do projecto e capacidade financeira, naturalmente, ajudam. Mas as boas ideias, essas, são ou serão fundamentais. 

Aqui entre nós, devo confessar que fui durante anos um fã incondicional deste vinho branco. Foi durante, algum tempo, um vinho para a ocasião especial. Depois, como tudo, larguei-o. Também, o peso da madeira e alguma robustez, a dada a altura, influenciou o afastamento.
O Reserva, branco ou tinto, a par do tradicional Monte Velho, deverão ser, parece-me, os porta-estandartes mais conhecidos da empresa. Ambos, no patamar em que se encontram, surgem disseminados por todo o lado e cumprem, na perfeição, a função.

Começo a ter a percepção, sustentada em meia dúzia de copos, que há uma ligeira mudança no perfil. Ando com a ideia que está menos pesado, menos gordo, mais leve, mais fresco. Outra nota curiosa e marcante, é que este vinho demonstra, inúmeras vezes, que tem uma boa ou muito boa capacidade de evolução. 
Se, por momentos, podem parecem banais, porque aparecem em todas as prateleiras, levando-nos a olhar para eles com certo ar de saturação, a verdade é que quando abrimos uma garrafa, percebemos que a coisa é muito bem feita. 

quinta-feira, fevereiro 05, 2015

José

Fazer homenagem a alguém ou a alguma coisa é um acto que merece ou devia merecer todo o respeito. O respeito aumenta se essa pessoa ou pessoas tiveram ou desempenharam um papel importante na nossa ou na vida de outros. No entanto, há um chorrilho de homenagens que significam muito pouco ou nada e que servem apenas para pagar o que estava em dívida ou para se ficar bem visto. Homenagens vazias de conteúdo, sem sentido, tal como aquela boa sorte que se deseja de forma dissimulada. Acabam por banalizar o conceito, a ideia, torná-la num lugar comum.


Este vinho tem a dignidade mais que suficiente, após onze anos enclausurado, para servir de real homenagem a quem de direito. Um vinho com um nome de alguém com importância para os homenageantes


Nestes casos, em que se sente genuinidade no acto, em que se reconhece que a homenagem foi sentida, tem significado, não é inócua, o silêncio ou parcimónia vocabular é a melhor forma de respeitar o nome e o vinho. Que se beba lentamente, que se aprecie, sem pressas. O vinho e a pessoa merecem.

quarta-feira, fevereiro 04, 2015

Só quero um bom vinho

Estava para aqui em período de preparação laboral, em momento que antecede a labuta, vendo como encadear isto ou aquilo aos miúdos, se vou por aqui ou por ali, se insisto nas expressões numéricas per si ou se volto aos temerários problemas, quando dei comigo a dar uma rápida volta matinal pelas novidades do dia. 
No meio de tanta coisa que fui observando, reparo que há uma mania ou uma tendência instalada, quase levada à saturação, na utilização dos conceitos relacionados com nicho, de pureza, de respeito, de tradição, de identidade, de regresso ao passado. Começo, não serei o único, presumo, a ficar baralhado com o que isto quer dizer, na verdade, com o que realmente quer dizer todo aquele conjunto de epítetos tão bonitos de soar ao ouvido ou de ler numa noite de paixões. 


Porque à medida que vou andando na vida, envelhecendo e relegando tanta coisa para segundo plano, começo a pensar que já não tenho cabeça para tanta nuance enófila. Só quero um bom vinho ao final do dia. Nada mais. 

segunda-feira, fevereiro 02, 2015

Pagar, não pagar ou nem por isso!

Francisco Barão da Cunha, autor do blog Enófilo Militante, por diversas vezes, tem levantado a questão das provas pagas, que segundo parece estão pegar moda. O autor, meu amigo e co-fundador da Garrafeira Coisas do Arco do Vinho, refere, e eu comprovo, que durante os treze anos em que esteve à frente de tal garrafeira, nunca foi cobrado qualquer escudo ou euro pelas provas que lá se realizaram. Apetece dizer: os tempos eram, definitivamente, outros. Estes momentos de divulgação, na altura, não eram coisas normais, não era comum termos aqui ou além, apresentações de vinhos, com os produtores e os enólogos responsáveis ali à nossa frente. Vivia-se uma autêntica Primavera enófila. 
Desde os finais dos anos noventa passou-se muita coisa. A titulo pessoal, e por razões que não interessa muito, não fui ou não sou um frequentador assíduo destas ou de outras ocasiões semelhantes (pagas ou não pagas). Ou porque não podia, não posso, não me apeteceu ou apetece ou porque não. As razões, as minhas, nada têm a ver com juízos de valor sobre o tema. 


Sobre o assunto, em causa - as provas pagas, atrevo-me a dizer que começo a ser, e sem estar a cem por cento sustentado, adepto. Cabe ao promotor decidir. 
A pouca experiência diz-me que o simples facto de ter que se contribuir altera totalmente, em alguns casos, o perfil do interessado. Fico com a sensação, também ainda pouco fundamentada, que quem vai, vai porque quer estar, porque quer efectivamente conhecer, provar ou beber, como queiram. E não, porque é uma borla para beber uns copos, um pequeno hiato de descontracção antes de ir para o trabalho, casa ou jantar. 
Creio que quando se paga, falo por alto e em termos genéricos, é-se mais responsável, mais atento, mais exigente. Espera-se, necessariamente, outro serviço, outro atendimento. O inverso, a gratuitidade, torna-nos mais complacentes, menos disciplinados. 
É decididamente um assunto controverso, em que ambas as visões terão razões bem sustentadas e válidas. Uma faca de dois gumes, como o Francisco refere. Mas é um assunto que merece séria reflexão. Contudo, fica a sensação que é uma ofensa pedir algo para se ter algo. Quase um ultraje. 

sexta-feira, janeiro 30, 2015

Mapa

Quero crer que se tivéssemos um mapa nas mãos, não nos perdíamos demasiado vezes. Com mais ou menor dificuldade, acabaríamos por encontrar o destino, o caminho certo. 

Rótulo giro, bem conseguido.
Ou, creio por vezes, se calhar o mapa que nos deram, vem com as legendas trocadas, com caminhos errados, sem continuação, sem saídas, com diversas e incontáveis armadilhas dissimuladas. Mapas que obrigam-nos a repetir o mesmo percurso, vezes sem conta, até ao lugar de partida. Gasta-se tempo. Tempo que, a partir de certo momento, começa a ser precioso. Tempo que, a partir de certa altura, deixamos de ter.

Um vinho que sabe a Douro. Com fruta, com alguma intensidade. Melhor, bem melhor no segundo dia. Ficou mais fresco, mais aberto. Parece-me, no entanto, que não trouxe muito de novo. Um bom vinho.
Na volta, julgo, tudo se resume a uma questão de (i)literacia, de incapacidade de interpretar, de perceber o que está assinalado no mapa.