segunda-feira, maio 23, 2016

Um mundo fofinho!

Para começar a semana da melhor forma, preciso de vir aqui expurgar algumas impurezas. Feita expurga, fico mais tranquilo.
Vivemos num mundo fofinho, onde a crítica na generalidade, seja ela formal ou informal, profissionalizada ou não, virtual ou não, tem uma forte tendência para ser naturalmente fofinha e querida com todos. Todos, todos não. Mas com quase todos. São raros os casos em que assistimos a comentários acutilantes, a opiniões divergentes, a propostas alternativas. Que pelo menos contestem. Que digam simplesmente não é bem assim. Mas não. Tudo é bom, tudo sabe bem, tudo é maravilhoso e mesmo quando se percebe que há ali qualquer coisa que falha, usam-se códigos ou meias palavras que só alguns percebem o que querem dizer, de facto. O resto da malta, como sempre, fica a pensar que também é bom, mesmo não sendo. O que importa é continuar a ser fofinho e carinhoso. De outro modo, pode ser complicado para quem tem aspirações ou ambições.


E no meio de tanta delicadeza e formosura, fica-se incapaz ou sem coragem para ser, só um poucochinho, mais arisco, mais traquinas. É-se fatalmente contagiado pela imensidão de actos de carinho. Ficamos sem jeito para dizer qualquer coisa que não seja bem igual ao que a maioria diz. Passamos a ser também fofinhos com toda a gente. Mesmo que se pense de outra forma, as manifestações públicas de afago tendem a ser iguais ao resto do bando. Carinhosas. É claro que o carinho também está interligado com peso que este ou aquele actor tem neste mundo querido. Nem todos valem o mesmo e algumas dessas carícias não devem ser públicas. No Facebook, o nível de carinho é medido pelo número de gostos que se vai obtendo e se vai dando. Já agora leiam isto.

sexta-feira, maio 20, 2016

É para isto que serve!

Só quando um tipo olha para o fundo da garrafa e vê que está vazia é que percebe que gostou, de facto, do vinho e que foi bebendo até ao fim, sem qualquer sofrimento. Melhor, ainda, se não for apanhado pelos temíveis danos colaterais, que vulgarmente chamamos de ressaca. É a prova provada.


Fica-se porreiro e relaxado na medida certa. É para isto que o vinho serve. Tudo o resto é fogo de pólvora seca, que só serve para fazer barulho. 


Epá, tem que saber bem, escorrer pela goela, divertir, aconchegar. Nada melhor que ficar recostado no sofá meio alucinado, em silêncio e a olhar para o vazio, com o copo seguro pela mão, dando a ideia que irá cair a qualquer momento. Tudo num equilíbrio muito frágil.

quinta-feira, maio 19, 2016

WTF!? Será Vinho Processado?

O mundo dos prémios de vinho continua a surpreender-me. A imaginação, como sabemos, permite criar todo o tipo de categorização. Prémios, concursos, medalhas para isto e para aquilo. Nada contra, só é preciso relativizar, avaliar a importância de cada uma das menções atribuídas. Sei que faz parte do jogo. 
Pensando que já tinha visto de tudo, ainda consigo ficar de queixo caído com algumas condecorações, que são completamente ridículas. Dignas de um palco circense, com todo o respeito para os aficionados e praticantes da arte. 


A última pérola apanhada neste profícuo e imaginativo universo dos concursos, foi ver um vinho vencedor de uma categoria que se chama, vejam lá isto, Produto Processado!? Processado? Processado de que forma? Podemos fazer o paralelismo com a comida processada? Será feito como um hambúrguer, como os nuggets? Feito às três pancadas? Numa bimby? Numa misturadora?
O ridículo e o despropósito  é de tal ordem aqui, que tornam as categorias e prémios W em algo quase normal e aceitável. Quase. 

quarta-feira, maio 18, 2016

Quinta da Falorca: de 2010 para 2016!

Da série Para memória Futura. A minha naturalmente. 
Não conhecia ou já não me lembro de o ter bebido. Das duas uma, como se costuma dizer. Bom, de uma forma ou de outra, tenho que ser sincero. Não estava à espera e como tal fiquei surpreendido com o estado em que o vinho se encontrava.


Um vinho branco que não apresentava qualquer tique de cansaço, de decadência. Com cores e frescura a apontarem para colheitas mais recentes. Atrevo-me a dizer que ainda apresentava sinais de ser capaz de continuar a evoluir, a maturar de forma perfeitamente digna e capaz. Epá, em muito boa fase.


Remato a coisa da mesma forma como comecei: surpresa e espanto. Para mim é mais que suficiente para querer voltar a ele, ao vinho, um dia mais tarde.

terça-feira, maio 17, 2016

Mapa

Fiquei surpreendido. Fiquei agradavelmente surpreendido. E desculpem lá a todos aqueles que já o conheciam. Eu não. 


Bem afinado, bem equilibrado e muito pouco Douro. Ups! Acho que não devia ter dito isto. Um vinho branco que me pareceu completamente fora do mainstream, pela finura, pela harmonia, pela imensa frescura que tinha. Um vinho vibrante na medida certa.


Um vinho que se bebe, vejam lá, sem darmos conta e sem que nos caia uma dor de cabeça em cima, no outro dia. E não é só. Foi possível, vejam lá outra vez, esvaziar a garrafa e continuar a ver um daqueles longuíssimos filmes de Sergio Leone, sem as pálpebras fecharem a meio. Um facto que deve ser louvado e registado, porque na maior parte das vezes isto não (me) acontece. Um tipo acaba por adormecer, por um motivo ou por outro.

segunda-feira, maio 16, 2016

Horácio Simões Tradição

São raros, muito raros, os vinhos brancos da Península de Setúbal que merecem ser colocados em patamares elevados de distinção, no que diz respeito às minhas preferências. Cada vez mais, sou confrontado com vinhos onde a exuberância aromática e a falta de personalidade dominam de forma exacerbada. Um estilo que, efectivamente, não aprecio, mas que faz as delicias do mercado. Uma forma de fazer vinho que é legitima, mas em que a identidade e o carácter parecem não ser a norma.


Felizmente, apesar de poucos, ainda é possível encontrar um vinho, como este Tradição da Casa Agrícola Horácio Simões, que nos oferece um conjunto de características que o colocam numa dimensão diferente da maioria dos seus pares. Para mim, é claro. Madeira equilibrada, sem os fatais exageros que se comentem ainda na região e em Portugal. Com muito equilíbrio, bem balanceado, bastante fresco e contido no que diz respeito a questões de fruta.


Apesar de estar bastante imberbe, senti que tenho aqui um vinho que vai ter estrutura para evoluir condignamente. Um vinho carregado de seriedade, um vinho branco que parece querer dizer-me que é possível calcorrear outros caminhos na região, bem diferentes dos que são percorridos actualmente com muita insistência. Um vinho branco que não alinha pelo diapasão da moda regional. Um vinho para mim e isso, no final, é que importa.

sábado, maio 14, 2016

Os Cordeiros!

Os cordeiros correm sem sentido. Ouvem-se apenas os chocalhos em uníssono. Todos atrás de todos, sem saírem do trilho, comendo nas mesmas pastagens. De um lado para o outro, bem juntos, nenhum sai do lugar, com medo que lhe comam a melhor erva, a mais fresca, a mais suculenta.


Os cordeiros lá andam, todos atrás uns dos outros, impávidos e serenos. A vida corre-lhes bem, desde que não se afastem do rebanho. Vivem na esperança que alguma coisa, mais tarde ou mais cedo, lhes caia em sorte. Aos que, por uma razão ou por outra, se desviam do grupo, o cão acaba por encaminhá-los para o lugar devido. Aos que insistem procurar por outras pastagens, são deixados para trás. Davam muito trabalho e já criavam mau ambiente na comunidade.

sexta-feira, maio 13, 2016

Quinta da Falorca Touriga Nacional 2002: É disto que falo!

Parece-me que a malta muitas vezes, falo por mim também, não sabe ao certo o que quer, não sabe muito bem o que dizer. Atira para o ar com o intuito de convencer os outros que tem razão e que está certo. Eu faço o mesmo. 
E imbuído deste espírito muito português, atrevo-me a dizer que este vinho encarna o que o Dão tinha, o que o Dão era, o que o Dão foi. Começa a ser pouco frequente apanhar um vinho tinto que me faça reportar a uma época que não sei muito bem qual era, mas que gostava profundamente.


Uma época em que os vinhos eram profundamente frescos, intensamente elegantes, que se bebiam até ao fim, sem esboçar a porra de um bocejo de saturação. Sem ficar desiludido ou a meia missa. O tempo também se encarrega de nos dizer quem é quem, quem teve estaleca para aguentar a viragem dos anos. Tipo aquele algodão que não engana. 


É disto que quero, que falo, que pretendo. Infelizmente, em todo o país e mais a sul, começa a rarear. Bom, aqui e além, parecem surgir novas ideias, novas apostas, principalmente para umas bandas meio perdidas, longe de tudo e de todos. Vamos ver se pega moda.

quinta-feira, maio 12, 2016

Muros Antigos: É disto que falo!

É deste estilo que procuro e desejo encontrar nos Vinhos Verdes: tensão, muito tensão. Frescura, muita frescura, onde a fruta é profundamente verde, ácida e crocante. Com uma sensação de pureza e de limpidez que rasga a boca do princípio ao fim. Com uma dureza e rusticidade que só enriquece e transmite carácter. Características que começam a rarear na região que, à semelhança do que acontece pelo país fora, parece ter enveredado por caminhos mais fáceis, onde a falta de identidade parece ser a força motriz.


Não tem nada a ver, portanto, com as doçuras que parecem descaracterizar a olhos vistos a maior parte dos Vinhos Verdes e Alvarinhos do Minho e do resto do país. Vinhos que, na maior parte das vezes, são pouco mais que refrescos açucarados, mal amanhados, sem ponta de interesse. Já agora, sobre o que anda a ser feito ao Alvarinho, atrevo-me a dizer que andam a matar (já mataram) a galinha.


Fico admirado quando leio teses, por parte de quem sabe de facto, que o cenário é muito mais cor-de-rosa, o que me leva a pensar que sou um arauto da desgraça. No que respeita a este vinho, apenas tenho a dizer que fiquei convencido.

quarta-feira, maio 11, 2016

Quinta das Marias: Dois Brancos para Memória Futura!

Como referi mais que uma vez, não consigo beber um vinho sem recordar episódios bons ou maus. Não consigo beber este ou aquele vinho, despido de qualquer subjectividade. O vinho, tal como tantas coisas na minha vida, é para ser desfrutado à minha maneira. Não quero saber se é assim ou de outra forma. Cobrir-me de uma objectividade que não tenho e nunca tive é dos actos que mais me violenta, que mais me estropia. É fingir o que não sou. Tem um preço? Tem e é elevado.
Gosto dos vinhos da Quinta das Marias, porque gosto do Peter. Indivíduo com um cavalheirismo exemplar, de uma educação ímpar. E isto afecta o meu olhar sobre os vinhos dele? Claro que afecta. E depois?  


De todo o portefólio, atrevo-me a dizer que não conhecia, salvo erro, estes dois vinhos brancos. Mostraram-me de forma quase exemplar a enorme capacidade que os vinhos brancos desta Quinta, em particular, e do Dão, no geral, possuem para evoluir condignamente ao longo do tempo. Mostraram-me uma verdade la palisseana: andamos a beber vinhos brancos cedo de mais. Tão cedo que, por vezes, acabamos por dizer mal deles, por não gostar deles ou ficar a meia-missa


Fiquei admirado com a enorme saúde e vivacidade que vinhos de 2001 e 2002 apresentaram a todos os níveis, desde a cor aos cheiros e sabores. Ao fim de quinze e catorze anos respectivamente, temos dois vinhos ou duas garrafas, como queiram, que mostraram o que devemos fazer: Esperar. Aguardar para que eles, os vinhos, nos possam apresentar de uma vez por todas as suas virtudes, tudo aquilo para que foram feitos de facto: prazer efectivo e não prazer simulado onde os gemidos são tudo menos verdadeiros.

terça-feira, maio 10, 2016

Os Varietais de Ermelinda Freitas e a arte da igualdade!

Esta foto é sintomática para mim. Bebo com alguma regularidade os vinhos deste produtor, na restauração, não escolhidos por mim, e ou em casa de outros. Fico sempre com a ideia repetida que são todos iguais na sua essência, que sabem ao mesmo ou, vá lá, com diferenças tão, mas tão insignificantes que entram na categoria dos valores desprezíveis, acabando por efectuar um arredondamento valorativo em todos eles. Atrevo-me a dizer que as diferenças situam-se, apenas, ao nível dos nomes das castas que os rótulos ostentam. Eu, por limitações pessoais, não consigo decifrá-las, ficando quase sempre com a convicção que estou a beber sempre o mesmo.


É uma fórmula com sucesso comercial, que é o que importa ao fim ao cabo. Compreendo, por isso, que haja tantos adeptos. Nada contra. É tudo uma questão de gosto.

quinta-feira, maio 05, 2016

Evel: O Regresso a um Clássico

Epá, gostei de pegar neste vinho que não bebia há muito tempo. Era, na altura, umas das minhas escolhas. Era um dos vinhos que escolhia para beber com muita regularidade. Sabia-me bem, gostava daquilo e gostava muito. Apreciava a sua frescura, a sua intensidade aromática, o seu crispy


Olhando para o arranque do século XXI, este e outros vinhos do mesmo patamar foram verdadeiras pedradas no charco. Começava a ser possível aceder, com mais facilidade, a vinhos brancos tecnicamente bem delineados, mais equilibrados e frescos. O cenário, naqueles anos, não era nada exuberante como agora. Demorou algum tempo até que os vinhos brancos começassem a ser recolocados em lugar de maior destaque.


E agora? Agora, devo dizer que senti-me bem ao beber este clássico da Real Companhia Velha. Gostei e não tenho qualquer pejo em o afirmar publicamente. Serve e serviu para ajudar no relaxamento, para acompanhar meia dúzia de pensamentos e deambulações pessoais ao final de um dia. Mantêm o registo que sempre teve, mas pareceu-me mais adulto, mais contido, mais sénior, mas sem perder ao mesmo tempo a jovialidade que o caracterizava. Done!