sexta-feira, janeiro 30, 2015

Mapa

Quero crer que se tivéssemos um mapa nas mãos, não nos perdíamos demasiado vezes. Com mais ou menor dificuldade, acabaríamos por encontrar o destino, o caminho certo. 

Rótulo giro, bem conseguido.
Ou, creio por vezes, se calhar o mapa que nos deram, vem com as legendas trocadas, com caminhos errados, sem continuação, sem saídas, com diversas e incontáveis armadilhas dissimuladas. Mapas que obrigam-nos a repetir o mesmo percurso, vezes sem conta, até ao lugar de partida. Gasta-se tempo. Tempo que, a partir de certo momento, começa a ser precioso. Tempo que, a partir de certa altura, deixamos de ter.

Um vinho que sabe a Douro. Com fruta, com alguma intensidade. Melhor, bem melhor no segundo dia. Ficou mais fresco, mais aberto. Parece-me, no entanto, que não trouxe muito de novo. Um bom vinho.
Na volta, julgo, tudo se resume a uma questão de (i)literacia, de incapacidade de interpretar, de perceber o que está assinalado no mapa.

terça-feira, janeiro 27, 2015

A ausência ou a má comunicação

Faz impressão, a mim, a política de comunicação, ou falta dela, de muitos (ou alguns) produtores. Resume-se, na melhor das hipóteses, à divulgação de fotos inócuas, nas redes sociais e pouco mais. De rótulos com mais ou menos medalhas. A sua interacção com quem compra os vinhos parece ser praticamente inexistente. Pouco se sabe sobre o que andam, por vezes, a fazer ou não. Que ideias têm? 

Na senda da colheita de 2007. Por menos de 4 euros, em alguns locais, temos aqui uma proposta muito interessante. Um vinho fresco e descomplicado. Um vinho para agora e para amanhã.
Diria, portanto, que a maior parte das vezes, o trabalho de divulgação e partilha é feito, em grande medida, por aqueles que compram os seus vinhos, que gostaram deles e que os aconselham.

Percebo o intuito das medalhas, mas que chateiam, lá isso chateiam.
E apesar do eventual sucesso, por parte dos presumíveis fãs, fica a ideia que a marca não é sinónimo de valor acrescentado, de desejo, mais ou menos exacerbado. Sabe-se que é, apenas, um bom vinho, mas despido de contexto, de alma, de história, de presença, de culto. E este estado é meio caminho para ser mais um vinho, entre tantos. 

domingo, janeiro 25, 2015

Remake: Villa Oliveira

Quem não revê um filme, relê uma obra literária, mais que uma vez? Quem não ouve, repetidamente, aquele álbum musical muito especial, aquela música identificativa de determinado momento? O facto de repetirmos, não quer dizer que estejamos sem ideias ou que queiramos estar ad aeternum presos a um qualquer passado que não voltará. Que não queremos olhar e seguir em frente. 

Está superlativo e viciante. Não nos larga.
Ouvimos, relemos, revemos porque precisamos de sentir, de voltar a sentir todos aqueles momentos que, por uma ou outra razão, marcaram e que ainda remexem profundamente connosco. Dizem-nos o que sentimos ou sentimos. São, quer se queira ou não, partes integrantes de nós.

É efectivamente um grande vinho branco.
Há vinhos que se encontram no mesmo patamar de tais livros, filmes ou músicas. Há vinhos que, pelas mesmas razões, precisamos de voltar, retornar a beber ou rebeber. Naturalmente, se calhar, não sei, o ideal, seria juntar o filme, a música, o livro e um copo com aquele vinho, também muito especial. E curtir a nossa bolha

quinta-feira, janeiro 22, 2015

Dominó

Tinha dito não há muito tempo, já tinha referido, que há actos ou coisas que me afastam de vinhos, que vedam o interesse, a paixão, que impossibilitam o querer, o ter. Não consigo e nem tento beber um vinho despido do factor emocional, do factor pessoal, de ter ou não ter algo que sustente essa vontade. A paixão é isso mesmo. Vive-se, sente-se e sofre-se por ela. Ou abandona-se, arruma-se a um canto. Sempre me fez, enorme confusão, o cuidado que se tem nas palavras que repetidamente se escrevem. Um cuidado que parece e deve ser regra, orientação, um modo de conduta. Uma conduta que despe o homem e torna-o vazio de conteúdo.


Tinha metido em tempos, e apenas, de relance os beiços no vinho. Tinha sido um acto fugaz, efémero, mas intenso. Foi o suficiente para o desejar, voltar a reencontrá-lo. A simplicidade estonteante, a ligeireza no perfume, a facilidade com que se estabelece uma relação entre nós e ele, o vinho, tornam todos os momentos em comum, lances de profundo prazer e desfrute.


De facto, e em jeito de súmula, de remate, apraz dizer que nem tudo que é complicado ou complexo, entrelaçado com coisas estranhas, presunçosamente requintadas, é o que mais gozo dá, que mais diverte, que nos fazem mais felizes.

terça-feira, janeiro 20, 2015

Quinta da Fata: Por causa de um vinho

Tem sido por causa de alguns vinhos que criei, estabeleci laços de cordialidade, de franqueza, de cumplicidade com algumas pessoas, com alguns produtores e enólogos. O vinho, esse, a partir de determinada altura deixou de desempenhar o papel principal. Deixou de ser o elo de ligação, passou a ser, apenas e apenas, algo perfeitamente dispensável, algo que podia ser colocado num plano subalterno. 
 
Na altura, já lá vão uns valentes anos, era um perfeito desconhecido. Não fazia ideia do que era e de quem era o seu patrono. Por causa deste vinho, um simples vinho, vive-se uma relação de profunda amizade com o produtor.
E passados onze anos, é um vinho que mostrou força, complexidade, profundidade em aromas e sabores. Um vinho que mostrou classe, sobriedade que me deixaram impressionado.
Em sentido oposto e curiosamente foram as pessoas, os indivíduos que me afastaram de alguns vinhos. Bloquearam a capacidade, a vontade em prová-los, em simplesmente bebê-los. Na verdade, alguns ainda os tenho. Estão lá, num canto, no seu lugar junto aos outros, até que emerja ou desapareça da frente, um dia, o facto ou os factos que vedaram a vontade. Eles, os vinhos, não têm culpa, mas eu também não tenho.
 

segunda-feira, janeiro 19, 2015

Cor de Rosa ou não

Dizem que a vida não é cor de rosa. Antes fosse ou não. No meio da turbulência que, por vezes, nos assola, exasperamos com o rol de maleitas, de peripécias estranhas que vão caindo sobre o caminho que calcorreamos. Uma após uma, vamos sendo picado pelos espinhos da rosa. 

Cor intensa que indiciava pendor gastronómico, musculado. Um rosé que, felizmente, não é rosé, que não é frívolo, que não serve, apenas, para a Primavera, para o Verão. 

Na verdade, nunca percebi ou compreendi bem o desejo, a ambição de se ter uma vida mais ou menos cor de rosa. Há outras cores bem mais giras, bem mais definidas, bem mais apaixonantes, com mais significado. O rosa dá ideia de inócuo, fútil, sem ideias, despersonalizado. 

domingo, janeiro 18, 2015

Um Prémio para o João

A crónica é sobre vinho, garanto! Contudo, há mais coisas para escrever. Quem não quiser ler além do estritamente vínico que salte para onde o texto retoma a sua cor habitual.
João Barbosa in Siza 2009

Estive a dar uma volta pelas novidades e acerquei-me por instantes, os suficientes, do blog do João. Faço-o com alguma regularidade. Caramba, o homem escreve bem, fá-lo com intuito, intenção e paixão e borrifa-se, por diversas vezes, para o supérfluo e escreve, escreve e narra de forma quase perfeita. Um exemplo, no meio. Sabe o que diz e como diz. Evoca sensações, relata temas, peripécias que vão além, bem além da estafada e mal escrita descrição, que por acaso também a faz bem. 

Foto da autoria de Magna Casta. O João é o que tem, ainda, cabelo.
O homem, e já que eles andam por aí, devia ter um prémio. Um prémio para quem escreve bem, sem erros de sintaxe, de morfologia, de congruência. Um prémio para quem trata as letras, a conjugação das mesmas, de forma quase exemplar. É, certamente, um caso modelo, um caso de quem, concorde-se ou não, goste-se ou não, consegue fugir da mediocridade na forma como se ortografa em português desacordado ou acordado.
A consultar para quem tem dúvidas, quando não se tem a certeza de como se escreve isto ou aquilo ou quando não se sabe, muito bem, onde colocar as vírgulas no lugar certo. O vinho, esse, serve naturalmente como companhia.

sexta-feira, janeiro 16, 2015

(Só)Montes

Os montes. Gosto de montes, dos vales, das serras. Apaixono-me, amor eterno, com as vistas que a vista alcança. Gosto da rudeza, da simplicidade complicada da rocha, do granito, da fraga. Gosto de do frio que bate nas ventas. Vento que enrija a carne, torna-a seca, dura e resistente. O corpo, esse, parece ganhar forças, fica cheio de alma. Capaz do incapaz. 



Gosto de estar, simplesmente estar. Estar, sem pensar, sem enredar. Gosto da franqueza dos montes, dos vales, das serras. São o que são. Estar a olhar para além, imaginar o que há ou haverá lá atrás dos montes. Imagina-se...

quarta-feira, janeiro 14, 2015

Encruzilhada do Dão

As paixões, os amores atravessam crises, momentos de desilusão. Períodos sem esperança. São assolados por dúvidas. São estados de alma normais na vida do mundo. Deste mundo, não de outros.
O Dão está triste. O Dão, eterna promessa, parece desorientado, sem rumo. O Dão e os seus timoneiros, andam perdidos, sem saber o que fazer e por onde ir. Aplica-se a máxima: ao deus dará. Estou acabrunhado com o que se passa, com aquilo que surge no horizonte, com o que vou ouvindo.
 
Fotografia que tirei a um conjunto de considerações sobre o Dão de JPM no seu guia de vinhos. Peço, desde já, desculpas pelo abuso. De qualquer forma, e não pegando no caso em particular, sinto que falta, por vezes, coerência entre o que se diz e o que, depois, se prefere/elege.
Não se comunica, maldito assunto recorrente. Quando se comunica, faz-se mal, faz-se sem frescura, sem alegria, sem vida. Cheira a passado. Maldito passado que só serve para relembrar chavões que não se aplicam no presente. À sombra do passado, que dizem ter sido glorioso, caminha-se por caminhos sem nexo, incoerentes. Reproduzem-se modelos, fazem-se cópias de outras margens. Cópias são isso mesmo: cópias. Produtos sem alma, sem personalidade, sem forma, sem conteúdo.
 
Vivendo de crises em crises identitárias, de Primaveras em Primaveras, o Dão corre o risco de cair nas calendas. Salvam-se aqueles que insistem em investir, ainda, nos sonhos, que procuram a pedra (que pode ser filosofal), que sabem que o caminho é outro e não este.
E eu, mesmo desiludido e coçando a careca, insisto e continuo a beber vinho do Dão. Todo, não. A idade e a vontade não permitem que o faça. Máxima que aplico a muito vinho made in PT. A realidade é transversal, não é só propriedade desta região. Desenganem-se os que pensam assim. Mas, e apesar de tudo, acredito que é única, carregada de potencial. Mas para o parecer, é preciso ser, de facto. Mostrem o que são capazes!
 

segunda-feira, janeiro 12, 2015

Remake: Quinta do Corujão Garrafeira

Já repeti e não me importava de repetir as vezes que fossem necessárias. Repete-se quando gostamos, quando não ficamos enfartados. Repetimos, porque precisamos de repetir, porque naquele momento, tínhamos ou temos a necessidade de o fazer. Repeti.


Serviu, por isso, para acalmar o espírito, domá-lo, amaciá-lo. Serviu, porque era esse o intuito, para o efeito. Serviu, ao fim ao cabo, para tudo.


E a melhor homenagem que posso fazer, é tê-lo bebido até à última gota, sem pensar em muito mais, sem dar importância aos enredos da rameira da vida. Bebi-o, na altura, em silêncio, em profunda pasmaceira. Um vinho simples, de linhas descomplicadas, sem pretender ser aquilo que não era. Profundamente genuíno. Genuinidade que todos, perdemos a dado momento da vida.

domingo, janeiro 11, 2015

Where the Wild Roses Grow

Música e vinho e largando, deixando de lado, todas as outras coisas que não têm interesse. Porque com vinho e música, pouco mais precisamos. Vamos sendo embalados pelas letras, pelo som, pela bebida. A mente fica livre, solta, sem regras, correndo por um mundo infinito, sem estar presos a redomas. Olha-se de frente, fixamos o olhar com os olhos fechados e esquecemos todas as maleitas da vida. Sentimos-nos mais puros ou, se calhar, ignoramos as impurezas que nos foram sujando ao longo do tempo.

Elegante, suave, que nos vai acompanhando lentamente durante a noite. Embala. Serve o propósito de acalmar a alma, o corpo.

Pegando em algumas passagens das melhores baladas que existem, Where the Wild Roses Grow, nada melhor que ir bebendo um copo de vinho, vagueando pelo tempo, olhando por cima, reparando, ou não, em tanta coisa: chamam-me Rosa Selvagem (...), não sei, porque me chamam assim, (...), desde o primeiro dia que a vi, sabia que era ela. Ela fixava o seu olhar nos meus olhos e sorria, os seus lábios eram da cor das rosa e cresciam junto ao rio ...


Where The Wild Roses Grow"

They call me The Wild Rose
But my name was Elisa Day
Why they call me it I do not know
For my name was Elisa Day 
From the first day I saw her I knew she was the one
She stared in my eyes and smiled
For her lips were the colour of the roses
That grew down the river, all bloody and wild 
When he knocked on my door and entered the room
My trembling subsided in his sure embrace
He would be my first man, and with a careful hand
He wiped at the tears that ran down my face 

On the second day I brought her a flower
She was more beautiful than any woman I'd seen
I said, "Do you know where the wild roses grow
So sweet and scarlet and free?" 
On the second day he came with a single red rose
Said: "Will you give me your loss and your sorrow"
I nodded my head, as I lay on the bed
He said, "If I show you the roses, will you follow?" 

On the third day he took me to the river
He showed me the roses and we kissed
And the last thing I heard was a muttered word
As he knelt (stood smiling) above me with a rock in his fist 
On the last day I took her where the wild roses grow
And she lay on the bank, the wind light as a thief
And I kissed her goodbye, said, "All beauty must die"
And lent down and planted a rose between her teeth 

quarta-feira, janeiro 07, 2015

Evel Grande Escolha: Dez anos!

É um caso, este aqui, em que a nova roupagem, escolhida na altura, foi infeliz. Ficou banal, ficou corriqueiro. Até parecia influenciar o vinho, de forma negativa. E, se calhar, não sei, deixei de comprar, por causa disso. Fica, assim, terminado o tradicional prelúdio.
 
 
Sobre o vinho, porque hoje apetece-me falar dele, exagerar nos adjectivos, nos atributos, não ter tento na língua, estava soberbo. A foto, essa,  já andou a circular por aí. Já a viram.
Os dez anos, tempo que parece longo, mas que passa num ápice, amadureceram-no, elevaram-no para um patamar de brilhantismo exemplar. Profundo de aromas, elegante em sabores. Classe. Mas aquele rótulo, caramba, aquela tramada estampa, parecia incomodar sistematicamente. Poluía a visão.

 
Um vinho que, como costumo dizer, soube-me pela vida. Soube por este mundo e pelo outro que há-de vir.