segunda-feira, abril 27, 2015

ALLGO Branco

Andava há tempo para traçar umas linhas sobre o vinho, nem que fosse só para referir-me, simplesmente, a ele. E mantendo-me fiel ao modo, serão breves as considerações sobre o dito. 


Um vinho que surpreendeu bastante. Fiquei com a convicção, no meio de tantas provas feitas no dia, no meio de outros vinhos mais ou menos semelhantes entre si, que tinha ali algo que merecia efectiva atenção, tempo e consideração. Um branco cheio de tensão, com muito nervo, com uma forte carga mineral, em que a frescura rasgava a boca a toda a largura. Com personalidade vincada.


Fiquei com a convicção de que tinha ali algo que iria aguentar o tempo, evoluir, crescer, dominar-se e amadurecer. Resta assinalar mais um aspecto curioso. No lote que integra o vinho, surge uma casta que, apesar de algumas replantações aqui ou além, tende a desaparecer no Dão: uva cão. É al(l)go , portanto, para seguir com toda a atenção.


quinta-feira, abril 23, 2015

Real Companhia Velha

Publicamente assumi perante os responsáveis que o meu conhecimento sobre a Real Companhia Velha (RCV) era, de alguma forma, reduzido. O que sabia assentava sobre diversos lugares comuns, mais ou menos sustentados.

Salão Nobre da RCV em Vila Nova de Gaia.
 Quinta das Carvalhas: Casa da Família Silva Reis
Quinta das Carvalhas e Casa Redonda ao fundo.
A percepção, a minha, é que estava perante uma empresa que apostava essencialmente no negócio do grande volume, com alguns produtos a posicionarem-se em patamares mais elevados, mas sem o reconhecimento de outras casas do Douro/Porto.



Quinta das Carvalhas
Quinta dos Aciprestes
Resumindo, e sem prolongar-me com justificações desnecessárias, sabia que produziam o Porca de Murça: o branco foi no passado uma opção de compra; o Evel na versão Grande Reserva/Grande Escolha foi vinho que sempre apreciei e segui com atenção até há pouco tempo; Quinta do Cidrô Chardonnay, por achar que era o perfeito exemplo de um vinho californiano; que também eram responsáveis pela Quinta dos Aciprestes, que apesar de algumas provas bem sucedidas no passado, não nunca lhe dei muita importância.
Sabia, também, que a partir da colheita de 2000 a empresa lançou todos os anos para o mercado um Vintage. E que foram (e são) responsáveis pelo colheita tardia, eventualmente, mais bem sucedido de Portugal. Sabia, porque passei diversas vezes perto do seu portão, que a Quinta das Carvalhas pertencia ao universo da RCV.

Quinta do Sídio
Palácio do Cidrô
Quinta da Granja

Por isso, e sem querer querer entrar em discursos bajulativos, enaltecendo isto ou aquilo, a empresa não precisa que o faça, fica a percepção, após uma visita de três dias aos diversos pólos sob sua responsabilidade (um património vastíssimo e muito interessante), que existe forte vontade de todos os responsáveis para reposicionar todo o projecto, incrementando-lhe qualidade, valor acrescentado, tentando, desta forma, desmitificar alguns dos potenciais preconceitos que poderiam existir. A criação da gama Séries e Carvalhas, bem como a consolidação das marcas Quinta do Cidrô e Quinta dos Aciprestes são exemplo disso.

quarta-feira, abril 22, 2015

Blandy's Verdelho 1977: Só para constar!

Estes é daqueles posts que mais gozo dá em delinear, dado que não servirá para quase nada. Desde as fotos, de má qualidade, ao conteúdo, pouco ou nada serve. O foco é simplesmente fazer pirraça colectiva. Como irão constatar, o conteúdo é profundo, cheio de articulados densos, que apelam a uma análise cuidada por parte de quem lê ou irá ler. Resumem-se, simplesmente, às fotos.



Portanto, e não querendo alongar-me muito com isto, dado que até estou razoavelmente bem disposto, facto raro, devo dizer que foi bebido com uma gulodice voraz, como que se a vida, a minha, acabasse logo ali a seguir. Por isso, como devem imaginar desapareceu num ápice. E pronto, foi assim. 

segunda-feira, abril 20, 2015

Abandonado

Estar Abandonado, por culpa própria ou de terceiros, é um estado que fatalmente deixa enormes mazelas. Abandonado à nossa sorte, sem qualquer apoio, sem qualquer amarra, torna-nos apátrida. De lado nenhum.


Abandonado é sinal de desamparo, de solidão, sendo que a condição de solidão, parece-me, é bem diferente da condição de abandonado. Solidão pode ser uma opção, enquanto abandonado é resultado, na maior parte das vezes, de acções. Acções que não se esquecem, que ficam guardadas, preservadas até um dia. Um dia em que se apontará tudo, em sinal de libertação, mesmo que o resultado final seja mais do mesmo: Abandonado.

Simplesmente um grande vinho. 
Só que desta ou dessa vez será por direito próprio, por livre escolha e não porque nos impuseram esse estatuto.

domingo, abril 19, 2015

O Branco: Flor das Maias

Assumidamente uma opinião parcial, tendenciosa e sem qualquer intuito, portanto, em esconder o que penso e como penso. Um estado que aprecio e que me deixa confortável. Na verdade, alegar independência é enredo para uma novela de cordel. Ninguém a tem e admiro, mesmo não concordando, quem demonstra e ou assuma a falta dessa qualidade. 


Feito o prelúdio, e sem qualquer cuidado, mais uma vez, nas palavras que escolhi para o efeito, devo dizer que este vinho branco encerra, dentro de si, um enorme potencial. Com o objectivo de ser um vinho de topo, mostra já uma complexidade, uma finura de trato muito assinalável. Apesar de não ser esmagador, não é esse o objectivo, são profundos e intensos os sabores e aromas. A sua evolução no copo é marcante e curiosamente mostra-se mais interessante, mais cativante com a temperatura mais alta. Sinal, quiçá, da sua personalidade. É um grande vinho branco do Dão.


Posto isto tudo, será escusado dizer que vem de um local que conheço, de uma terra e região que me diz muito e por isso é forte a carga emocional. Um vinho, portanto, de paixão e como tal foi bebido de forma exacerbada, intensa e fogosa. De outra forma, e ao coberto da tal seriedade e independência, perdia toda a graça e interesse.

quinta-feira, abril 16, 2015

Evel Grande Reserva 1999: Versão Manuscrita

Aproveitando a pausa do café, aqui vai um mero entretém para hoje.
Não há muito tempo tinha referido que, por causa do rótulo, comecei a relegar para segundo plano este vinho, não por causa de falta de qualidade dele, mas porque embirrei, por questões meramente pessoais, com a estampa. Uma questão, portanto, de gosto.
Mas não deixa de ser curioso que, da última vez que o bebi, não tinha sequer rótulo. Tinha, apenas, uma breve descrição manuscrita. Apesar de identificado de forma muito elementar, fez recordar a classe do antigo (rótulo). Vinho e vestimenta eram coerentes. Ficavam bem um para o outro.


De qualquer modo, foi e ainda é um belo vinho tinto e que marcou, para mim, um período feliz da minha vida. Quase que me atreveria a dizer que 1999 foi um dos meus anos Vintage. Um vinho elegantizado pela idade, um vinho que apetece simplesmente beber. Revelador, também, da boa capacidade que tem para ir passando pelo tempo. E terminada a pausa do café, sobra aquela máxima bem conhecida de todos nós: recordar é viver.

terça-feira, abril 14, 2015

Uma grande virtude

Acordei, como quase sempre, meio mal disposto, irritado com mil e uma coisas. Coisas que, por muito tente, ainda fazem disparar os alarmes da impaciência. Impaciência e irritação por não ser capaz de virar as costas a meia dúzia dessas coisas que insistem moer. Impaciento-me com a pobreza intelectual, a decadência da qualidade, a boçalidade escrita e oral que vai existindo, pululando livremente. Que enchem a nossa vida.
Gosto de acordar, tomar café e ler as novidades do dia. Novidades que sejam novidades, que sejam novidades alegres, ler e reler textos bonitos, que façam sentir que vale a pena, que há uma indelével esperança. Mas a porra é que a miserabilidade do intelecto é tão grande que nos coloca, bem cedo, sem vontade de enfrentar o (este) dia. 


Sobra por isso, neste momento, a confiança de que amanhã quando voltar a acordar, mesmo mal disposto, surjam pela frente histórias mais bonitas, relatos mais emotivos e íntimos. Coisas, as tais coisas, que nos alegrem. Até lá, apetece dizer que o cinismo é, efectivamente, uma grande virtude.

domingo, abril 12, 2015

Simplesmente: Back to Basics

Há momentos que se tornam icónicos por representarem na perfeição um estado de alma, a razão pelo qual optámos ou tentámos ser assim e não de outra maneira. São lances que nos fazem relembrar do que gostamos efectivamente, independentemente de modas ou corridas desenfreadas em busca sabe-se lá do quê. À procura de um graal que não existe, de facto. São momentos que nos dizem, tal altifalante ao ouvido: pára!

Simplesmente tinha tudo para não vingar. Mas vingou. Vingou de forma brilhante. Sorte ou acaso?

Na verdade, e em jeito de partilha, ando numa silenciosa demanda com o propósito de reencontrar a inocência perdida, numa tentativa de regressar ao básico, ao elementar. Despojar-me de todos os desejos, aspirações e ambições sem sentido, relegando para posições secundárias coisas e actos que são, na verdade, meras ilusões que apenas desgastaram e ainda desgastam. Que desviaram do óbvio, do que realmente importa e interessa. Que nos vão matando lentamente, impossibilitando de viver.

Era disto que gostava.
É como se quisesse voltar à condição de criança, que já fui, a olhar para uma montra repleta de brinquedos que não posso ter. Mirá-los por breves segundos, mas seguir caminho aconchegado pela mão da mãe. Sinal de resignação? Talvez sim. Talvez não. Antes sinal de constatação: cada um faz o que pode fazer e tem o que pode ter.

sexta-feira, abril 10, 2015

JMF Moscatel Roxo 20 anos: Moscatel que é Moscatel de Setúbal

Por muito que tente, por muito esforço que imprima em entender ou aceitar, há coisas que são o que são, para mim. E perdoem-me, todos aqueles, que acham o contrário. A presumível liberdade, em que vivemos, assim vai permitindo. Não encontro casa que trabalhe, na generalidade, os Moscatéis de Setúbal com a mesma mestria da José Maria da Fonseca. Dou de barato que esta afirmação tão taxativa, tenha como sustentação o meu eventual desconhecimento sobre o que há ou não na região.

Com uma profundidade e complexidade ímpares que o situam ao nível dos grandes vinhos licorosos portugueses.
A capacidade de perdurar na memória é elevada. Passadas horas, após o último gole, ainda pupulavam um conjunto de sensações sumptuosas, luxuriantes, levando-nos a pensar que a vida pode ser próspera.
São raros, muito raros (ou residuais) aqueles que conseguem situar-se no mesmo patamar. São pesados, demasiado melados, parcos em frescura e complexidade, planos e sem garra. Sem aquele toque muito especial, que nos faz ficar efectivamente feliz o resto do dia ou com enormes saudades no futuro, por causa da sua ausência. Acabo como comecei: são o que são.

quarta-feira, abril 08, 2015

Quinta de Sanjoanne: Venha o Diabo e Escolha

A expressão venha o diabo e escolha pode ser a conclusão a retirar da prova feita in loco com os vinhos da chancela Quinta de Sanjoanne. Que venha o diabo e escolha, porque as diferenças encontradas foram mínimas. Resumiram-se, vá lá, a meros apontamentos de preferência estritamente pessoal. Poderia dizer que gostei mais de A em detrimento de B, mas creio que para o que está em causa, a relevância era diminuta e sem qualquer interesse factual.





De qualquer modo, sobressai a estonteante qualidade, nunca verificada pessoalmente e de forma tão lata, na gama Terroir Mineral. Desde as primeiras colheitas, o seu carácter vincadamente mineral, austero e seco marca presença de forma afincada. Impressionante, também, a forte juventude, a irrequietude, o nervo detectados nas restantes gamas, mostrando uma enorme coerência entre todos os vinhos. 




Importa registar, por isso, que ao fim de uma porrada de vinhos, fica a convicção, minha, de que estivemos perante vinhos de elevado gabarito, capazes de envelhecer ao longo de muitos anos, confirmando que branco verde é para beber também maduro. Desta forma, resta-me terminar como comecei: venha o diabo e escolha, porque eu não consigo. 

terça-feira, abril 07, 2015

As Vinhas e os Vinhos de António Madeira

Entre o sonhar ou desejar e o fazer vai um valente passo. Um passo que, todos, recusamos dar, optando por passar a vida carpir palavras ou expressões de sofrimento. Preferimos, por ser mais fácil, a resignação, o encolher dos ombros e escudar-nos em múltiplas desculpas.

Um vinho profundo, muito fresco, com muito carácter.
Independentemente do que achamos dos vinhos, do projecto, se gostamos ou não, creio que é meritório que alguém sem conhecimento, um autodidacta, sem história no mundo do vinho, abrace à sua maneira, com a sua visão, um sonho, um ideal e o tente concretizar. E poucos, parece-me, o conseguem. Raros são, também, aqueles que nutrem uma paixão exacerbada por uma região, ao ponto de não terem vergonha de escarrapachar com letras garrafais o nome dela, relegando para segundo plano a sua chancela, a sua marca. 

Um salto qualitativo em relação à primeira colheita. O branco de dois mil e treze está muito interessante, cristalino, limpo e muito profundo e que parece ter arcaboiço para aguentar no tempo.
A par de outros produtores, de maior dimensão, mencionou, logo que foi possível, o nome da sua sub-região: Serra da Estrela. Fê-lo, antes de mais, porque acredita no território, nas suas potencialidades, no carácter vincado da sua orografia. A seu lado está um grupo de amigos que a diversos níveis o tem ajudado, que lhe vai dando pistas, caminhos alternativos, opções, ideias com o simples objectivo de o ver singrar, de ter sucesso. A palavra final, naturalmente, é dele.

segunda-feira, abril 06, 2015

Feliz Lonjura

Reparei, aliás, constatei que não tive falta disto. Nem por momentos pensei que estaria a desmobilizar os meus infindáveis leitores, que no meu caso se resumem ao vizinho do lado. Passaram-se dias, os suficientes, para perceber que posso controlar o vicio, que é perfeitamente desprezível, acessório. Que o seu valor é efectivamente (muito) pouco, que tem pouca relevância.



Foram dias, os meus, em que não soube o que se passou ou se passava, em que não sabia o que se dizia, que não quis saber literalmente de nada. Foram dias de distância, de feliz lonjura que só determinados lugares nos permitemSenti, dentro desta atormentada alma, qual era e onde era o meu lugar e o que precisaria para chegar até ele. O foco, o meu, passou a ser ainda mais intimo, mais interno, menos partilhável, ainda menos compreensível.